Câncer por HPV: o Brasil pode ficar sem

Apesar do Brasil contar com o Programa Nacional de Imunizações, o Ministério da Saúde indica que a cobertura vacinal contra o HPV não foi atingida em 2020. Cerca de 70% das meninas e pouco mais de 40% dos meninos foram imunizados com a primeira dose.

               
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Medicina de Família e Comunidade

Não é de hoje que decidi dedicar tempo em minha agenda para projetos que realmente podem impactar positivamente a saúde dos brasileiros e não participar de ações que ficam estagnadas no campo da teoria e da discussão como fim e não como forma de encontrar alternativas para a busca da solução. Na saúde, assim como na educação, não há mais como adiar certas agendas que precisam ser postas em prática imediatamente.

Recentemente, escutei de um pensador uma frase interessante: tempo é a unidade de medida da mudança. E o momento da mudança para a ampliação da cobertura vacinal contra o HPV já passou. Precisamos imediatamente reverter o cenário e seguir o exemplo de países como Ruanda, na África e Suécia, na Europa. Vejam que estou falando de dois casos bastante distintos, se olharmos para o perfil socioeconômico. Mas, são exemplos muito relevantes e emblemáticos, que provam que o importante é a definição do que querem implementar e o compromisso com a população e com a Nação.

É inadmissível um país como o Brasil, que tem um programa de vacinação consagrado há anos, como é o PNI (Programa Nacional de Imunizações/MS), ser um dos países com maior índice de contaminação pelo HPV, causador de diversos tipos de câncer, entre eles o de colo de útero que, anualmente, é diagnosticado em mais de 17 mil mulheres e que mata mais de 9 mil*, muitas delas na faixa etária dos 50 anos que, por não terem tido a oportunidade de receber a vacina no fim da infância e início da adolescência, desenvolveram a doença na idade adulta e faleceram precocemente, deixando suas famílias órfãs e seu futuro interrompido.

Dados do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde indicam que, de 2013 a 2020, “a primeira dose da vacina HPV, cuja meta é de 80%, foi aplicada em cerca de 83% das meninas de 9 a 14 anos e em torno de 58% dos meninos de 11 a 14 anos. Na segunda dose, os índices de cobertura vacinal foram de aproximadamente 55% em meninas e 36% nos meninos”.

Essas são estatísticas inaceitáveis.

O UNICEF, fundo das Nações Unidas para a Infância, que promove os direitos e o bem-estar de crianças e adolescentes em todo o mundo, afirma que os desafios dos programas globais de vacinação incluem “consciência limitada do benefício das vacinas em algumas comunidades, combinado com baixas taxas de alfabetização, barreiras de gênero ou crenças socioculturais e que a hesitação vacinal pode levar ao atraso na aceitação ou recusa das vacinas, apesar da disponibilidade e é uma preocupação crescente, especialmente em segmentos da população que têm acesso a informações nas redes sociais, bombardeadas por fake News”.

Essa declaração confirma o que tenho ouvido recorrentemente dos especialistas da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm), parceiros de longa data do Instituto Lado a Lado pela Vida e que, a partir do próximo dia 10/12/21, assumem conosco um novo compromisso desafiador, de atuar em uma campanha efetiva para ampliar a cobertura vacinal contra o HPV e reduzir significativamente a incidência do câncer de colo de útero no Brasil.

Sabemos que a vacina também será importante para que outros tipos de tumores não se desenvolvam, como os casos de câncer de pênis; orofaringe e boca, mas como tenho acompanhado de perto o caso bem sucedido de Ruanda, é preciso ter foco e método. Por isso, elegemos atuar nos tumores de colo de útero.

Neste artigo, vou dedicar atenção ao caso de Ruanda e não da Suécia. Se olharmos para esse país localizado na África Oriental, que faz fronteira com Uganda, Tanzânia, Burundi e República do Congo, com a população de pouco mais de 13 milhões de pessoas, sendo 50,84% mulheres, segundo o Banco Mundial, há muito o que aprender. Meu olhar para o programa de vacinação contra o HPV de Ruanda e, consequentemente, de redução nas taxas do câncer de colo de útero começou em 2018, ao preparar a agenda da primeira edição do nosso Global Forum – Fronteiras da Saúde.

Na ocasião, o Instituto Lado a Lado pela Vida buscou identificar bons exemplos de países que tomaram decisões de transformar o cenário da saúde, com ações de grande impacto social e econômico, para reverter cenários e promover uma nova possibilidade para a sociedade se desenvolver. Foi quando conhecemos o Dr. François Uwinkindi, médico epidemiologista que, na época, trabalhava no grupo que coordenou o projeto de imunização contra HPV em meninas naquele país. Fiquei pessoalmente impactada pela assertividade do programa de Ruanda que, em 2011, definiu uma agenda para a Nação, de se dedicar à erradicação do câncer de colo de útero, atuando em frentes muito bem definidas: imunização contra o HPV; rastreamento e tratamento do câncer de colo de útero.

Hoje, dez anos após essa decisão, Ruanda registra mais de 90% da cobertura vacinal contra o HPV em meninas. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), mais de 1,15 milhão das adolescentes em Ruanda receberam a primeira dose da vacina contra o HPV entre 2011 e 2018. E com esse compromisso, seguido à risca, fez com que a cobertura da vacinação contra o HPV da população tenha aumentado de 6% para meninas nascidas em 1993 até 99% para as nascidas em 2002.

Esses dados mostram que é possível atuar e mudar a realidade quando há vontade política e quando a população acredita que a ação é criada para melhorar sua condição de saúde e de vida. Em minhas conversas com o Dr. François, que a convite do LAL esteve no Brasil em 2019 e seguimos em contato desde então, o sucesso do programa ocorre pois foi formada uma força tarefa entre os ministérios da saúde e da educação; grande imprensa e a participação pessoal dos líderes do governo, incluindo
a primeira dama do país. A vacina que, inicialmente, foi doada por uma farmacêutica passou a ser adquirida pelo Governo e aplicada nas escolas de todo o país, que concentra mais de 80% da população em áreas rurais. Como disse ele, “não fizemos um projeto piloto. O que temos em Ruanda é um programa nacional, que faz e fará parte de nossa agenda para sempre”.

Esse exemplo é uma prova visível de que não precisamos de projetos complexos, mas sim de atuação coordenada e da garantia de que essa decisão será perpetuada, para que o país avance nas agendas prioritárias, com recursos financeiros e de pessoas dedicadas à causa.

Enquanto líder de uma organização social da área da saúde, não posso simplesmente olhar para o nosso País e saber que, desde 2014 a vacina do HPV está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS), para meninas de 9 a 13 anos e, desde 2017, ofertada também para meninas até 14 anos e meninos com idade entre 11 a 14 anos, e sua cobertura atingir índices tão abaixo da meta.

Como conviver com essa realidade de que faz 7 anos que temos disponível na rede pública uma vacina que previne o desenvolvimento de vários tipos de câncer e os pais ainda terem dúvidas se devem ou não vacinar seus filhos?

No ano passado, escrevi um artigo sobre esse tema aqui no Portal Futuro da Saúde e afirmei que não descansaria enquanto essa situação fosse perpetuada. Hoje, divulgo neste portal que no próximo dia 9 de dezembro realizaremos o 1º Seminário Câncer por HPV: o Brasil pode ficar sem, com a participação de especialistas reconhecidos das áreas de imunização, infectologia e pediatria; representantes do Ministério Público e de organizações sociais que advogam nas áreas de educação e informação, destacando a importância do combate às fake news.

E, como mencionei anteriormente, no dia seguinte, 10/12, lançaremos oficialmente a campanha nacional com o mesmo nome: “Câncer por HPV: o Brasil pode ficar sem”, tendo o Cristo Redentor como testemunha.

Lado a Lado, vamos atuar para mobilizar a população para a importância de vacinar as meninas e meninos e, também, para cobrarmos dos gestores públicos e privados ações efetivas que reduzam drasticamente os índices dos cânceres causados pelo HPV, principalmente o de colo de útero, para que, em 2030, como estabelecido pela OMS, possamos reportar estatísticas diferentes das de hoje.

Convido todos a embarcarem nessa campanha para ampliarmos a cobertura vacinal no Brasil, urbano e rural, e mudar o cenário do câncer de colo de útero no País.

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