Câncer de mama e as desigualdades na oncologia

A mortalidade por câncer deve ser de 20% a 30% maior no biênio 2020/ 2021 por conta dos exames de rastreamento adiados e tratamentos interrompidos durante a pandemia de coronavírus

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O tumor de mama feminino é a neoplasia mais incidente no mundo, com 2,3 milhões de casos diagnosticados em 2020, ultrapassando de maneira inédita o número de novos casos anuais de câncer de pulmão. A notícia foi divulgada no último Dia Mundial do Câncer (a data é lembrada anualmente em 4 de fevereiro), pela Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde.

Também foram apresentados dados globais da doença: 19,3 milhões de novos casos e 10 milhões de mortes em 2020. Isso significa que uma em cada cinco pessoas desenvolve câncer durante a vida. Um a cada oito homens e uma em 11 mulheres acabam morrendo por causa da doença.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer também divulgou informações locais. O INCA estima que, em 2021, devam ocorrer 625 mil casos novos de câncer. O tumor de pele não melanoma será, novamente, o mais incidente (com 177 mil casos), seguido pelos cânceres de mama e próstata (66 mil cada), colorretal (41 mil casos), pulmão (30 mil) e estômago (21 mil). O câncer de pele não melanoma representará 27,1% de todos os casos de câncer em homens e 29,5% em mulheres.

As estimativas do INCA repetem o número já divulgado em 2020. Mas não podemos ignorar o impacto da pandemia da Covid-19 sobre os diagnósticos e o tratamento do câncer. Estudos internacionais e projeções nacionais preveem um efeito significativo sobre esses dados. A mortalidade por câncer deve ser de 20% a 30% maior no biênio 2020/ 2021 por conta dos exames de rastreamento adiados e tratamentos interrompidos.

A importância do rastreamento e do diagnóstico precoce

Analisando os dados de incidência no Brasil e as estatísticas de prevalência do INCA, o papel dos chamados exames preventivos, que conseguem, na maior parte dos casos, apontar lesões pré-malignas ou tumores em fase inicial, fica evidente. Coloco nesta lista o toque retal e o PSA para o câncer de próstata, a mamografia e ultrassonografia – além dos exames ginecológicos periódicos – para os tumores de mama e outros femininos, a colonoscopia para o câncer de intestino, além das tomografias de pulmão, para quem tem um histórico de tabagismo. Fundamental, também, a avaliação periódica de um dermatologista.

Mais uma vez, a questão do rastreamento e do acesso ao tratamento se coloca no centro do debate. Em 2020, o câncer de mama representou 11,7% de todos os novos casos de neoplasias em todo o mundo. As maiores taxas de incidência ocorreram em mulheres em países de alta renda, como Estados Unidos e Europa. Em nações em desenvolvimento, os índices foram mais baixos, mas estão aumentando.

Costumo dizer que uma das tônicas para o câncer é a frase “quem procura acha, quem acha cura”.

Para quase todo tumor, independentemente do local onde ele começa, do grau de gravidade, quanto mais precoce o diagnóstico, as chances de cura são mais altas, com um tratamento que terá menos efeitos no organismo. No caso do câncer de mama, segundo a IARC, o número de sobreviventes da doença nos últimos 5 anos é de quase 8 milhões mulheres, acima de outro tipo de câncer.

A desigualdade e o câncer

No entanto, essa taxa sobrevida não é uniforme em todo o mundo e as disparidades são claras entre os países mais desenvolvidos e as nações em desenvolvimento. Essa diferença se replica entre as distintas camadas sociais dentro dos países. Os desfechos distintos são atribuídos à redução do acesso ao diagnóstico precoce e às oportunidades de conclusão do tratamento. Um retrato do que acompanhamos aqui no Brasil.

Testemunhamos as dificuldades das organizações de combate ao câncer em manter os serviços nos últimos meses, estabelecer as medidas para evitar a disseminação do coronavírus e o contágio por parte dos pacientes. Porém, os programas de prevenção e diagnóstico, as pesquisas clínicas em Oncologia, e o acesso aos tratamentos e medicamentos precisam ter a garantia de manutenção. A segurança deste fluxo é fundamental não apenas para o paciente oncológico, mas para toda população.

Paciente oncológico deve ser vacinado contra Covid-19? Sem dúvida

Em tempo, na última semana, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) solicitou formalmente ao Ministério da Saúde que pacientes oncológicos em todo o território nacional sejam incluídos nos grupos com prioridade na vacinação contra a Covid-19. O argumento principal são “as evidências científicas de que pacientes com câncer são mais vulneráveis aos riscos de complicações ocasionadas pelo Sars-CoV-2”.

Aproveito este espaço para reforçar o papel da Ciência e das pesquisas e esclarecer que as vacinas já liberadas são absolutamente seguras, como tantas outras que já foram aprovadas no país e são usadas no dia a dia nos postos de saúde e clínicas de todo o Brasil.

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