Ausência de diálogo entre pais e filhos é um problema na pandemia, com efeitos para a saúde mental

Nesse momento em que o sistema de saúde beira o colapso, a sensação de insegurança e incerteza é universal e os pais terão menor disponibilidade emocional para ouvir e acolher. Mas é preciso encontrar apoio e forças para isso e preservar um espaço seguro para os filhos.

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Um fenômeno social vem silenciosamente tomando espaço entre as pessoas e dia após dia se faz mais e mais presente: a ausência de diálogo. Entre amigos, entre pais e filhos e entre casais, entre a escola e os estudantes, entre os líderes de um país e os cidadãos. Parece contraditório, já que temos cada vez mais recursos para nos comunicarmos uns com os outros. Mas estamos deixando de dialogar, o que significa interlocutores no mesmo nível, que respeitam e ouvem um ao outro para que juntos possam ir além das suas opiniões individuais.

Esse é um fenômeno evidente nas mídias sociais, que valorizam a imagem e restringem os comentários a poucos caracteres. As pessoas normalmente “seguem” aquelas com quem concordam e se discordam de alguém, lançam comentários ácidos, muitas vezes violentos, com o objetivo de desqualificar. Não há espaço para respeitar e de fato ouvir a opinião do outro, para se relacionar na busca da razão, da construção em conjunto de um conhecimento. Há discursos e debates, há o incentivo para a polarização e para o conflito. Raras vezes testemunhei nas mídias sociais e grupos de mensagem alguém que diz que não sabe, que muda de opinião, que pede desculpas.

Se vemos a ausência de diálogo ocorrer à luz do dia nas mídias sociais, temos notícias de que também ocorre na privacidade das casas, na intimidade das famílias. A falta de diálogo entre pais e filhos é um enorme problema, com consequências potencialmente graves para o desenvolvimento das crianças e adolescentes.

É no diálogo com os pais que ocorrem muitos processos fundamentais para o desenvolvimento humano saudável. É no diálogo, por exemplo, que a criança e adolescente encontra um espaço seguro em que se sente ouvido, compreendido, valorizado, para onde pode se refugiar nos momentos de incerteza e sofrimento. Nesse espaço, a relação com os pais pode refletir e entender sobre as suas próprias emoções e aprender a lidar com elas, pode entender aqueles que estão a sua volta, a sociedade, pode construir a ideia do que é certo e errado, dos valores e objetivos a serem perseguidos. Nesse espaço também desenvolve a noção de que existe o outro, que tem opiniões diferentes, com as quais pode aprender.

Outro dia, uma adolescente me disse: “Minha irmã morreu e eu não tinha quem pudesse me ouvir. Meus pais estavam piores do que eu, meus avós só choravam. Eu pensei que o único jeito seria se eu não sentisse mais nada”. Esse é um exemplo extremo de alguém que, devido a uma tragédia, ficou sem um espaço de diálogo, de cuidado dos pais e, para sobreviver emocionalmente, usou um recurso extremo – deixar de sentir. Hoje, mais de 10 anos após, entre outros problemas, sofre porque se relaciona com várias pessoas, mas não consegue fazer uma amizade íntima nem namorar.

Criar um espaço de diálogo, em que de fato um respeita o outro, se coloca no lugar do outro para entender o seu pensamento, argumento, não é tarefa fácil, mesmo para pais. Entre pais e filhos a falta de diálogo ocorre por muitas razões, e uma delas talvez seja a grande lacuna entre as gerações, dado que as mudanças sociais e culturais têm ocorrido em velocidades crescentes e novas gerações vêm surgindo em períodos de tempo cada vez menores. O tempo também está cada vez mais escasso na nossa sociedade e a concorrência cada vez maior. Valoriza-se cada vez mais o desempenho em detrimento do ser e do sentir, que muitas vezes é encarado como algo indesejável, um empecilho para que se produza mais.

Para que o diálogo ocorra, é importante que exista disponibilidade de tempo, de espaço, e principalmente disponibilidade emocional. As refeições frequentemente são um espaço propício para o diálogo e há muitos estudos que mostram que famílias que compartilham as refeições diariamente têm filhos com maior bem estar físico e emocional (1-3). Tempo de qualidade é fundamental, mas é na convivência diária, no compartilhar contínuo de experiências que se desenvolve a intimidade e com isso, o diálogo.

Nesse período de pandemia, em que famílias estão convivendo continuamente e todos estão sobrecarregados de emoções intensas, criou-se uma possibilidade única e também uma necessidade emergente para o diálogo. As crianças e adolescentes necessitam urgentemente expressar o que sentem: saudades, tédio, frustração, raiva, medo e ansiedade. Crianças e adolescentes em famílias que estão sofrendo a doença ou a morte de um parente, a privação econômica, a sobrecarga do trabalho do pai ou da mãe na área de saúde, precisarão de maior acolhimento. Os pais precisam ouvir, colocar-se no lugar dos filhos, entender que as limitações na rotina, a falta dos amigos e da escola geram sofrimento emocional. É importante validar o sofrimento, respeitar, acolher. Conversar sobre o que tudo isso representa, as fantasias e medos que surgem, a frustração, as preocupações em relação ao futuro. Essa experiência ensina a importância e o valor do diálogo e gera a possibilidade de que sejam adultos que dialoguem. Permite também a elaboração do sofrimento e, com isso, pode-se evitar problemas emocionais. E problemas emocionais futuros, como depressão e ansiedade, são uma das consequências prováveis e antecipadas da pandemia, principalmente sobre as crianças e adolescentes.

Nesse momento em que o sistema de saúde beira o colapso, a sensação de insegurança e incerteza é universal e os pais terão menor disponibilidade emocional para ouvir e acolher. Mas é preciso encontrar apoio e forças para isso e preservar um espaço seguro para os filhos. Um desafio sem precedentes, que nem sequer imaginamos que viveríamos, mas que, se atravessarmos juntos, compartilhando e elaborando sentimentos e conhecimentos, ouvindo e respeitando o outro, poderemos emergir mais fortes, com maior consciência social, valorizando mais o encontro e a relação com os outros e a vida.

Referências

1. Agathão BT, Cunha DB, Sichieri R, Lopes CS. The role of family meal frequency in common mental disorders in children and adolescents over eight months of follow-up. PLoS One. 2021 Feb 4;16(2):e0243793.

2. Harbec MJ, Pagani LS. Associations Between Early Family Meal Environment Quality and Later Well-Being in School-Age Children. J Dev Behav Pediatr. 2018 Feb/Mar;39(2):136-143.

3. Harrison ME, Norris ML, Obeid N, Fu M, Weinstangel H, Sampson M. Systematic review of the effects of family meal frequency on psychosocial outcomes in youth. Can Fam Physician. 2015 Feb;61(2):e96-106.

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