O que é atenção primária e por que o setor de saúde vai investir mais nessa área

Setor de planos de saúde poderia se beneficiar de investimentos em atenção primária.

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Na saúde pública brasileira, a atenção primária é a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). Já no setor de saúde suplementar, ainda não é adotada de forma ampla por seguros e planos de saúde. Entretanto, essa realidade tende a mudar, pois cada vez mais se discute a necessidade de investimentos na área.

Mas, qual o conceito de atenção primária? O termo pode ser definido como uma maneira de organizar o atendimento de saúde de forma que atenda à maior parte das necessidades dos cidadãos. Ela objetiva disseminar informações e orientações sobre a prevenção de doenças e a promoção da saúde, além de encaminhar casos mais graves e específicos para um atendimento mais especializado.

A atenção primária à saúde (APS) funciona como se fosse um filtro, que organiza o fluxo dos serviços, sejam eles simples ou complexos. Entretanto, não é apenas um ponto de triagem, mas um ponto em que se resolve a maior parte das questões de saúde dos pacientes. Ela é feita de forma constante, regional e sistematizada, reunindo ações preventivas e curativas no atendimento às pessoas e comunidades. 

Por que o setor de saúde deverá investir cada vez mais em atenção primária

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A atenção primária mostra ser um serviço mais resolutivo e acolhedor, além de melhorar a experiência do paciente e também o custo-efetividade. É isso que aponta um estudo realizado pelo Centro de Estudos e Planejamento em Gestão de Saúde da Fundação Getulio Vargas (FGVsaúde) a pedido do Instituto de Estudos em Saúde Suplementar (IESS).

De acordo com o documento, o setor de planos de saúde poderia se beneficiar de investimentos em atenção primária. Desperdícios ligados a tratamentos e à realização de exames e procedimentos desnecessários seriam reduzidos com um maior controle e acompanhamento de custos assistenciais. 

A atenção primária à saúde é considerada por especialistas o pilar da organização do sistema de saúde. É responsável por propiciar um cuidado integral e integrado, com racionalização da utilização dos recursos e, acima de tudo, qualidade. Nessa abordagem, o foco maior é no paciente, e não na doença. 

Além disso, um dos focos da atenção primária é manter o vínculo com o paciente no decorrer de toda a sua vida, com um atendimento próximo e humanizado. Desse modo, também colabora para que exames e internações sejam minimizados.

Segundo um levantamento da União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde (Unidas) de 2018, investimentos em atenção primária à saúde poderiam acarretar na redução de cerca de 5% do total de internações. Isso corresponderia a mais de 20 mil internações anuais, que resultaria em um montante financeiro de R$ 400 milhões ao ano.

Assim, investir em atenção primária seria muito benéfico para o paciente. Especialmente para pessoas mais idosas, que têm mais chances de ficarem doentes e precisarem de internações. Os planos de saúde poderiam reduzir os seus gastos, e os próprios beneficiários poderiam ter mais qualidade de vida, com acompanhamento direcionado e capacitado.

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Atributos da atenção primária

Existem quatro atributos essenciais da atenção primária: o primeiro contato, a longitudinalidade, a integralidade e a coordenação. Esses quatro itens são essenciais para que a atenção primária à saúde coordene as redes de atenção à saúde. Porém, a coordenação acaba se destacando mais, porque, sem ela, o primeiro contato seria apenas uma função administrativa, o potencial da longitudinalidade ficaria muito inferior e a integralidade ficaria comprometida.

E há ainda três derivações vindas deles, que são a abordagem familiar, enfoque comunitário e competência cultural. Entenda cada um dos atributos, assim como as derivações:

Primeiro contato (ou acesso)

É a porta de entrada dos serviços de saúde. É quando a população e a equipe constatam que tal serviço é o primeiro a ser procurado quando surge um problema de saúde. O primeiro contato (ou acesso) deve trazer um serviço acessível e uma resolução de acordo com o problema de saúde apresentado pelo paciente neste primeiro momento. 

Longitudinalidade

É uma fonte constante de atenção ao indivíduo, independente de ele ter ou não problemas de saúde. Ou seja, é uma relação pessoal de longa duração entre o paciente e o estabelecimento de saúde, visando a satisfação do último sempre. Algumas características deste atributo são: a tranquilidade do paciente em falar para o profissional de saúde sobre o seu quadro; o quanto percebem o interesse e atenção do profissional com o seu caso, levando em consideração outros aspectos da sua vida que não somente a doença ou o problema de saúde; e o alcance de entendimento entre ambos. A longitudinalidade gera diagnósticos mais precisos e evita procedimentos mais complexos. 

Integralidade

Este atributo cria vínculo com o paciente e o acolhe. Isso valoriza muito o trabalho subjetivo do estabelecimento, mostrando que ele pode ser diferente, e centraliza o cuidado do paciente. Exercer esse atributo inclui rever conceitos, repensar algumas práticas e conformações dos serviços públicos de saúde, que normalmente possuem uma assistência descontínua.

Coordenação

Ela pode ser a integração entre os vários serviços e as ações de saúde, deixando os mesmos em sintonia e com foco no paciente. Oferecem uma mescla de serviços e informações que atendam às necessidades de saúde do paciente de modo agregado, através de diversos pontos de rede de atenção à saúde. 

Abordagem familiar

Remete ao conhecimento pela equipe de saúde, não somente ao paciente, mas também aos membros da sua família e dos seus respectivos problemas de saúde. Compreender a forma como a família influencia a saúde permite com que o profissional de atenção primária possa antecipar ou minimizar os efeitos variados do estresse familiar, e utilizar os próprios membros da família para cuidar e tratar das pessoas. Poderia ser interessante criar uma parceria entre o profissional, o paciente e a família. A abordagem familiar é mais um recurso para o bem estar das pessoas.

Enfoque comunitário

Significa reconhecer os recursos que a comunidade expõe. Associações de moradores, igrejas, áreas de lazer, escolas, entre diversas outras, representam apoio no tratamento e acompanhamento dos pacientes. O enfoque comunitário dentro da atenção primária faz uso de diversas habilidades. Sejam elas clínicas, epidemiológicas, ciências sociais, pesquisas avaliativas, entre várias outras, o enfoque comunitário visa colaborar para complementar os programas que respondam às necessidades particulares de saúde de uma determinada população.

Competência cultural

É a capacidade de realizar um cuidado completo do paciente. Para isso, utilizando a compreensão e o respeito, de forma compatível com as crenças e práticas culturais de saúde dele. No Brasil, a atenção primária à saúde deve ser realizada próxima da vida dos cidadãos. E isso deve ser feito de forma que o cuidado e a atenção sejam plenos. Desse modo, profissionais de saúde precisariam enxergar uma pessoa não somente em sua singularidade, mas também na sua inserção sociocultural. Afinal, existe uma influência muito grande que os contextos social e cultural implicam nos comportamentos de risco e de prevenção das pessoas, bem como na utilização dos serviços de saúde por parte delas.

Serviços oferecidos na rede de atenção primária à saúde

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Há diversos serviços que são oferecidos na rede de atenção primária à saúde do SUS. Eles também poderiam ser oferecidos pela saúde suplementar no âmbito de atenção primária. São eles:

  • Acolhimento e identificação da necessidade médica;
  • Consultas individuais e coletivas realizadas por médicos, enfermeiros e dentistas;
  • Visita e atendimento domiciliar;
  • Cuidados com a saúde bucal;
  • Vacinação;
  • Desenvolvimento das ações de controle da dengue e outros riscos ambientais à saúde;
  • Pré-natal e puerpério;
  • Acolhimento da mãe e do bebê após receber alta na maternidade;
  • Rastreamento de câncer de colo uterino (preventivo) e câncer de mama;
  • Curativos;
  • Planejamento familiar;
  • Teste do pezinho;
  • Teste rápido de sífilis e HIV;
  • Teste rápido de gravidez;
  • Prevenção, tratamento e acompanhamento de doenças sexualmente transmissíveis e de doenças infectocontagiosas;
  • Acompanhamento de doenças crônicas, tais como hipertensão, diabetes e doenças respiratórias;
  • Ações de promoção da saúde e proteção social na comunidade;
  • Controle de tabagismo.

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