Com foco no paciente no centro, ASCO 2023 traz novidades em diversos tumores e atualizações de tratamentos

Com foco no paciente no centro, ASCO 2023 traz novidades em diversos tumores e atualizações de tratamentos

Sobrevida de pacientes com câncer de pulmão, medicamento para tumor cerebral e tratamento para HER 2 são destaques da ASCO 2023.

By Published On: 08/06/2023
Sobrevida de tratamento de câncer de pulmão é um dos principais destaques da ASCO 2023.

O Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2023) trouxe grandes avanços para o diagnóstico e tratamento do câncer. O congresso, que ocorreu entre 2 e 6 de junho, reuniu cerca de 40 mil médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, é considerado o maior evento de inovações e divulgação científica para a oncologia.

Futuro da Saúde conversou com especialistas que estiveram no evento e destacaram suas impressões sobre o ASCO 2023, as principais novidades apresentadas e os novos paradigmas que podem modificar o dia a dia dos consultórios e hospitais, trazendo mais eficiência nos cuidados de pessoas com câncer.

Para o oncologista Antonio Carlos Buzaid, diretor médico do Centro Oncológico da BP – A Beneficência Portuguesa, o congresso trouxe novas evidências que indicam que o tratamento do câncer continua no caminho da medicina de precisão, indicando o tratamento mais efetivo para cada paciente. No entanto, ele aponta que “ainda são tratadas muitas pessoas que não precisam e deixadas de tratar pessoas que provavelmente precisam”. ”Essa é uma área que nós ainda temos deficiência e precisamos melhorar”, diz Buzaid.

Os dados apresentados são incluídos em tempo real no Manual de Oncologia Clínica do Brasil, considerado referência no tema no país e utilizado pelos profissionais para a tomada de decisões em relação ao tratamento de pacientes com câncer. Buzaid é editor-chefe da publicação, e afirma que é preciso tempo para digerir os mais de  2.900 trabalhos científicos apresentados no evento.

Clarissa Mathias, oncologista do Grupo Oncoclínicas e membro do comitê científico da ASCO 2023, afirma que a forma que o congresso lidou com o tema principal, o paciente no centro de tudo, foi uma das coisas mais importantes que ocorreram neste ano. “Sobre o câncer de pulmão tivemos um paciente em torno da mesa, o que foi muito interesse ver a sua perspectiva. Já estamos caminhando nesse sentido, de incluir o paciente nas discussões do tratamento, levar em consideração a vontade dele”, observa.

Veja os destaques abaixo:

Câncer de pulmão

Considerado o principal destaque do evento, o medicamento osimertinibe, vendido comercialmente com o nome de Tagrisso e produzido pela AstraZeneca, se mostrou eficaz para aumentar a sobrevida e reduzir a recorrência de tumores em pacientes com câncer de pulmão não pequenas células com mutação no receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), proteína presente nas células do tumor que têm função de crescimento, que representam 10% dos casos. 

O medicamento que já é aprovado pela Anvisa para esse grupo de pacientes agora comprova sua eficácia em reduzir pela metade o risco de morte e deve ser utilizado como tratamento padrão nesses casos, em estágio inicial da doença. A sobrevida dos pacientes estudados que utilizaram o inibidor foi de 88%, enquanto a de pacientes com placebo foi de 78%.

O estudo de fase 3 foi conduzido por cientistas do Yale Cancer Center e envolveu 682 pacientes de 26 países, com cânceres em estágio IB, II ou IIIA e ressecamento completo do tumor, isto é, houve retirada através de cirurgia. A mutação ocorreu em regiões específicas, nos éxons 19 e 21, e necessita de exames que identifiquem tais alterações.

“De tudo que a gente viu na ASCO, essa é a coisa mais importante. Todos pacientes têm que ter uma análise molecular, no pré-operatório para a decisão de estudo de neoadjuvância e se a quimioterapia e imunoterapia devem ser feitas antes da cirurgia e precisam dessa medicação. Infelizmente não está disponível no SUS”, analisa a oncologista Clarissa Mathias, do Grupo Oncoclínicas.

Câncer de reto

“No câncer do reto utilizar quimio ao invés de usar quimio e rádio antes de operar é um progresso, porque no Brasil, pensando em radioterapia, não há boas máquinas no país inteiro, somente em grandes centros. É um tratamento antigo, mas mostra que aquela estratégia era tão boa quanto usar químio com radioterapia, por exemplo” explica o diretor médico do Centro Oncológico da BP – A Beneficência Portuguesa, Antonio Carlos Buzaid.

O estudo apresentado durante o congresso comparou os resultados de mais de mil pacientes com câncer de reto avançado durante 6 anos. Separados em dois grupos, um utilizou somente uma combinação de quimioterápicos (oxaliplatina, fluorouracil, and leucovorina), e outro recebeu sessões de radioterapia além dos medicamentos, até então sendo utilizado esse esquema como tratamento padrão.

De acordo com os pesquisadores, não houve diferenças significativas entre os grupos, o que aponta para a possibilidade de retirar a radioterapia do tratamento, o que pode ser um ganho para a saúde pública brasileira, já que país tem um gargalo de aparelhos de equipamentos.

De acordo com o Censo de Radioterapia do Ministério da Saúde, de 2018, o país tinha 252 equipamentos destinados ao atendimento do SUS. Relatório publicado em abril pela Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) aponta que cerca de 73 mil pacientes ficam sem radioterapia por ano no SUS.

Tumor cerebral 

“A sessão plenária apresentou tratamentos que mudam a prática. Por exemplo, em tumor cerebral, o inibidor de uma proteína que está alterada por um remédio novo, vai mudar a atuação clínica. Provavelmente o remédio deve ser aprovado e utilizado em tumor cerebral”, explica Buzaid.

O estudo foi feito com o medicamento vorasidenibe da farmacêutica Servier, destinado a pacientes com glioma, um tipo de tumor do sistema nervoso central, que tenham mutações nos genes responsáveis pela produção da isocitrato desidrogenase tipo 1 (IDH-1) e tipo 2 (IDH-2), importantes para realização das funções normais das células.

Ao todo, 331 pacientes participaram da pesquisa clínica e foram separados entre o grupo que recebeu o inibidor e outro que recebeu placebo. A A sobrevida livre de progressão após foi de 27,7 meses para aqueles que receberam o medicamento, contra 11,1 meses do grupo controle, em pacientes com glioma grau 2.

O medicamento recebeu a designação de fast-track do U.S. Food and Drug Administration (FDA) em março de 2023. Segundo a empresa, em anúncio divulgado em 4 de junho, “a Servier está trabalhando para determinar os cronogramas para a apresentação de um pedido de novo medicamento (NDA) para o vorasidenib ao FDA”.

Tratamento para HER 2

Destaque na ASCO do ano passado, o Enhertu (trastuzumab deruxtecan), fruto da parceria entre AstraZeneca e Daiichi Sankyo, voltou a figurar entre os principais estudos. Isso porque uma pesquisa de fase 2 mostrou a possibilidade do medicamento agir em múltiplos tumores sólidos avançados que contenham a proteína HER 2.

“Ele é aprovado hoje para mama, pulmão e estômago nos Estados Unidos, mas agora ele provavelmente vai ser estudado em mais profundidade para vários cânceres. É o que a gente chama de medicina de tumor agnóstico, basta ter a tal da proteína”, explica Buzaid. A HER 2 está presente na superfície dos tumores e é responsável pelo crescimento.

Utilizado no trabalho como segunda linha de tratamento para pacientes com câncer do trato biliar, bexiga, cervical, endometrial, ovariano e pancreático, além daqueles que o trastuzumab deruxtecan já possui indicação, apresentou uma taxa de resposta objetiva de 37,1%. Em pacientes com maiores taxas de expressão do HER 2, a resposta subiu para 61,3%.

Participação brasileira

Pesquisadores da BP – A Beneficiência Portuguesa divulgaram trabalhos na ASCO 2023. Um deles traz resultados que apontam para uma redução na aplicação de gosserrelina em pacientes com câncer de mama em período pré-menopausa, para a supressão ovariana. Atualmente, é recomendado a utilização deste medicamento de forma mensal, mas o estudo mostrou que o uso trimestral traz efeitos semelhantes.

Liderado pela oncologista Daniella Audi Blotta, o estudo contou com a participação de 88 pessoas e foi feito através do retrospecto de pacientes que foram tratados no hospital nos últimos 10 anos. A produção da equipe de pesquisadores foi motivada pela falta de dados sobre o tema, e os achados indicam a eficácia do tratamento trimestral, o que pode estimular outras pesquisas na área.

Apesar de não haver uma diminuição na dose, já que foi aplicada 10,8mg de goserelina a cada 3 meses ou 3,6mg de goserelina por mês, em associação com inibidores de aromatase, os resultados possibilitam uma melhor adesão ao tratamento, já que o paciente reduz as idas ao hospital para realizar esse tratamento. 

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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  • Redação

    Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

  • Fernando Maluf

    Diretor Associado do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer. É formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde hoje é Livre Docente. Possui Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialização no Programa de Treinamento da Medical Oncology/Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em New York.

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