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Tratamento contra câncer de mama metastático é destaque no ASCO 2022

Nova classificação do câncer de mama e novos tratamentos foram recebidos com esperança pelos especialistas.

               
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Nova classificação do câncer de mama permite o estudo te novos tratamentos.

Entre os dias 3 e 7 de junho, o congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), trouxe grandes esperanças para o tratamento do câncer. O maior evento da área e que reúne médicos de todo o mundo, apresentou os principais avanços da oncologia, novos estudos e terapias com potencial de impactar a saúde da população.

Este ano, todos os holofotes foram direcionados a um novo tratamento para o câncer de mama metastático. O estudo trouxe uma nova classificação a um tipo de tumor, o HER2 low, que permitiu testar uma droga que mostrou resultados expressivos, superiores aos tratamentos convencionais. Esse trabalho foi tema da nossa última newsletter. Clique aqui para assinar e não perder as novidades.

Além disso, outros estudos apresentados mostraram uma perspectiva para os tratamentos de outros tumores, especialmente para aqueles metastáticos, que atingem outros órgãos, além da região inicial do próprio câncer. Apesar de não ter cura, a busca é por terapias que prolonguem a vida e aumentem a qualidade dela aos pacientes.

Nova classificação

A sessão plenária da ASCO 2022 trouxe o estudo mais importante do congresso. A pesquisa Destiny-Breast04 mostrou uma nova classificação ao câncer de mama. Até então, se avaliava se o tumor era positivo ou negativo para uma proteína chamada HER2. Dessa forma, o médico analisava o resultado para indicar o tratamento específico.

“Os remédios que a gente tinha para atacar os tumores HER2 positivos só funcionavam para aqueles extremamente positivos. O que aconteceu é que de uns anos para cá, com as evoluções das nossas terapias, sobretudo de um tipo de remédio chamado anticorpo monoclonal conjugado à droga, permitiu que parte desses remédios mostrassem uma atividade inicial para esse perfil de indivíduos chamado HER2 low”, afirma Carlos Henrique dos Anjos, oncologista do Hospital Sírio-Libanês.

Assim, o estudo identificou quais pacientes com câncer de mama metastático tinham HER2 low e tratou-as com o trastuzumab deruxtecan (T-DXd), anticorpo monoclonal conjugado já utilizado no tratamento de pacientes com HER2 positivo, aprovado no Brasil desde 2021.

Dos Anjos explica que o resultado pode beneficiar um grupo muito maior de pacientes, já que os tumores HER2 positivo representam cerca de 15% dos casos, enquanto HER2 low é encontrado entre 50% e 55% das pacientes com câncer de mama metastático.

Resultados

Durante os testes clínicos de fase 3, o estudo avaliou 577 pacientes com câncer de mama metastático HER2 low, com os subtipos triplo negativo ou hormônio positivo, que já haviam passado por um ou mais tratamento quimioterápico.

Os resultados comparativos foram animadores. Enquanto com uma terapia convencional dava uma sobrevida global mediana de 7 meses e uma sobrevida livre de progressão mediana de 5 meses, a utilização do trastuzumab deruxtecan pelos pacientes do estudo apresentou uma sobrevida global de 24 meses e a sobrevida livre de progressão de 10 meses.

“Como é uma doença metastática, que já se espalhou para algum outro ponto do corpo, qualquer tratamento que a gente fizer, infelizmente não tem mais a chance de fazer a doença desaparecer por completo. O objetivo é atrasar ao máximo a progressão da doença, controlá-la pelo máximo de tempo possível para o indivíduo ter a melhor qualidade de vida e tempo de vida a despeito apesar da doença metastática”, explica o oncologista.

O desafio, no entanto, é controlar os efeitos adversos dessa terapia. Apesar da maioria deles serem conhecidos e fáceis de controlar, como náusea e febre, o médico explica que é preciso redobrar a atenção com a pneumonite.

“Esse efeito colateral ocorre entre 10 e 12% dos pacientes que recebem esse remédio. E infelizmente, uma porcentagem pequena desses indivíduos podem vir a falecer pela inflamação pulmonar. O que a gente sabe é que quanto mais a gente conhece a droga e quanto mais a gente faz protocolos de busca precoce do efeito colateral e entra com medicamentos, a chance desses efeitos colaterais agravarem-se diminui significamente”, explica.

Outros destaques

“A doença metastática sempre foi um desafio para nós, oncologistas, na possibilidade de buscar altas taxas de cura. Cada vez mais dentro dos congressos são mostradas drogas que atuam em alvos específicos, que trazem mais qualidades de vida, menos toxicidade ao paciente, buscando que ele viva com a doença oncológica por mais tempo”, afirma Gabriela Fredo Manara, oncologista clínica da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

A médica que acompanhou a ASCO 2022 aponta outros destaques que foram apresentados durante o congresso e que podem vir a se tornar grandes ferramentas no tratamento do câncer, em especial contra os metastáticos.

Câncer de próstata metastático

Estudo de fase 3 avaliou o tratamento combinado de lutécio, um rádio fármaco que já é utilizado na oncologia, junto ao tratamento convencional de câncer de próstata metastático. 813 pacientes participaram do estudo.

O lutécio é levado até até a região do câncer pelo PSMA, uma proteína presente nos tumores cuja sigla significa “antígeno de membrana específico da próstata”. Lá, ele emite radiação que destrói as células tumorais.

“O Lutécio-PSMA teve ganho de sobrevida global, redução do risco de progressão da doença em torno de 40% e morte em 30%. Atualmente, a gente já o tem no mercado brasileiro, mas não faz parte nem das prestadoras particulares, nem do SUS”, explica a médica.

Neoplasia de colorretal

Outro trabalho robusto que ganhou destaque foi o que compara a ação dos anticorpos monoclonais panitumumab e do bevacizumab, associados à quimioterapia, com cerca de 800 pacientes com neoplasia de colorretal metastático esquerdo RAS selvagem.

Enquanto o panutumumab é um anti-EFGR (Receptor do Fator de Crescimento Endotelial, em tradução livre), o bevacizumab é um anti-VEGF (Fator de Crescimento Endotelial), um grupo de proteínas responsáveis pelo desenvolvimento do tumor.

RAS é um dos genes que podem sofrer mutação quando o paciente desenvolve esse tipo de câncer, e está ligado ao surgimento do tumor. Denomina-se “selvagem” aqueles que não sofreram mutação. Apesar dos dois tratamentos serem indicados para esse tipo de câncer, acredita-se que o tratamento com os anticorpos monoclonais anti-EFGR é mais eficaz. No entanto, haviam poucos estudos que comparavam os dois tratamentos.

Os resultados foram ao encontro dessa hipótese. O uso do panitumumab se mostrou mais efetivo, com maior ganho de sobrevida, e possibilitara uma maior taxa de cirurgia com detecção completa. Ainda, a taxa de resposta ao tratamento foi de 80,2%, frente a 68,6% com bevacizumab.

Câncer de reto

Um estudo preliminar avaliou o tratamento de 12 pacientes com câncer de reto avançado com o anticorpo monoclonal dostarlimab por 6 meses. Todos os pacientes envolvidos tiveram remissão completa da doença por 1 ano.

Esse tumor é bastante conhecido pelo risco pro paciente de uma realização de bolsa de colostomia definitiva. Então se busca diversas estratégias para evitar tanto que o paciente seja submetido a cirurgia, quanto o uso de radioterapia concomitante à quimioterapia nesses pacientes”, explica a médica.

Por isso, apesar do estudo ser pequeno, gerou grande esperança entre os oncologistas e pacientes. É preciso, no entanto, aguardar novas evidências com a droga, para que possam de fato indica-la como um tratamento para esse tipo de câncer.

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