As tendências do mercado de saúde no mundo pós-pandemia

Na 5ª edição do Fórum Internacional de Líderes de Saúde, líderes debatem o impacto econômico da Covid-19 no setor e o que esperar para o futuro

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Na 5ª edição do Fórum Internacional de Líderes de Saúde, líderes de saúde debatem o impacto econômico da Covid-19 no setor e o que esperar para o futuro

A pandemia da Covid-19 levou os sistemas de saúde ao máximo de suas capacidades. Com isso, os líderes de saúde buscam por formas de lidar com o impacto econômico gerado pela crise sanitária e destrinchar como será o futuro para o setor da saúde. “O futuro da saúde é incerto e as questões geradas pela pandemia ainda irão aparecer. Estamos no início dessa transição, da pandemia para a realidade”, afirmou Marco Costa, CEO da Americas Serviços Médicos, em mesa da 5ª edição do Fórum Internacional de Líderes de Saúde (FILIS).

No debate “Futuro da Saúde e os impactos econômicos no Pós Pandemia” destacaram-se as questões da medicina baseada em valor e o impacto da pandemia nos sistemas de saúde. O evento contou ainda com o mediador Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, e Antonio Fabron Junior, CEO da DB Diagnósticos do Brasil; Julio Aderne, General Manager da Abbott no Brasil e Sidney Klajner, Presidente do Albert Einstein.

O paciente no centro das decisões

Entre as metas, os líderes de saúde citam a importância da integração dos sistemas de saúde e a desospitalização dos pacientes. Contudo, o consenso dos especialistas nesse momento é a importância da medicina baseada em valor, o que coloca o paciente no centro das decisões.

Esse conceito abrange desde novas práticas de gestão, até o investimento em tecnologias e diagnósticos mais precisos e precoces. Para Julio Aderne, General Manager da Abbott no Brasil, “a ideia é estabelecer uma cadeia de saúde pensada nos interesses dos pacientes, que agora estão se convidando para estar no centro desse debate”. Para ilustrar esse cenário, a Abbott realizou uma pesquisa em maio deste ano, em parceria com o Instituto Quantas. 

Ao entrevistar 2000 pessoas acima de 25 anos, das classes sociais A, B e C, o levantamento buscou compreender quais as expectativas do público com os processos impulsionados na pandemia. O resultado indica que mais de 60% querem cuidar mais da saúde, investir em exames, e ter acesso a diagnósticos mais rápidos e precisos. Além disso, 70% das pessoas querem a tecnologia como um apoio para a interação médica.

Nessa questão, Aderne pontua ainda que as soluções — como o estímulo à nutrição adequada, diagnósticos e dispositivos médicos — precisam ser acessíveis e alcançar as pessoas que mais necessitam delas. A expectativa é que essas ações combinadas aliviem os custos da saúde, estimulem bem-estar e a qualidade de vida das pessoas e torne mais simples a jornada dos pacientes dentro dos hospitais e clínicas.

Pouco investimento saúde

Mas, apesar da saúde ser uma prioridade da população no momento, o investimento nesse setor se mostra insuficiente. Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que o Brasil é um dos países que menos investe em saúde. A constatação tem como base o gasto per capita do país comparado aos outros 44 países emergentes da organização.

Ainda na questão econômica, Antonio Fabron Junior, CEO da DB Diagnósticos do Brasil, cita que a grandeza dos impactos econômicos do futuro da saúde dependem da forma como a pandemia é enfrentada e por quanto tempo se estenderá. Há também questões culturais que prejudicam o investimento em saúde nesse momento, como a falta de articulação entre agentes e instituições governamentais.

Até o momento, o impacto econômico da pandemia na saúde é visto em dados da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados, que indica 38 bilhões de reais gastos em medidas de emergência durante a crise sanitária. “O valor seria quase ⅓ do total gasto em 2019 com todas as ações regulares do Ministério da Saúde nesse setor”, conclui Fabron.

Medicina diagnóstica e o impacto da pandemia

No setor da saúde, a medicina diagnóstica é citada como uma das principais afetadas durante a pandemia. Em 2020, houve uma queda de 36% na quantidade de exames esperados para aquele ano. Dados coletados pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Federal de Medicina indicam ainda que 51% das mulheres brasileiras não realizaram exames preventivos de papanicolau. Há ainda os 41% das mulheres que não realizaram as mamografias de rotina. Dessa forma, estima-se que cerca de 50 mil novos casos de câncer deixaram de ser diagnosticados.

O Ministério da Economia aponta que existem 12.324 laboratórios de análises clínicas e desses 80% são médicos com pequenos laboratórios. E, apesar destes serem a maioria, a pandemia colocou sua sustentabilidade em risco. Nesse contexto, a Abramed indica que os laboratórios de análises clínicas sofreram uma queda de 60% no primeiro semestre do ano passado.

O caminho da medicina baseada em valor

A junção desses fatores preocupa Sidney Klajner, presidente do Albert Einstein. Pois em um momento onde é necessário recuperar os prejuízos, há o risco das empresas interpretarem o termo medicina baseada em valor de forma equivocada, buscando maximizar seus lucros e não necessariamente atender às demandas do público.

“Muitas vezes o valor é confundido com a previsibilidade dos custos e não é isso”, explica Klajner. Segundo o especialista, “precisamos estudar muito bem o que é o valor entregue, porque quando falamos da entrega da saúde, o valor tem a ver com o que é colocado pelo paciente. Para alguns é ter um plano de saúde que a empresa financie ou ter acesso a um pronto socorro, por exemplo”. 

Ultrapassado este desafio, a expectativa é que a medicina baseada em valor ofereça um futuro melhor para os pacientes e também para o Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é que o sistema público otimize a prevenção de doenças, o que deve evitar os desperdícios. Klajner afirma que “um terço das internações do SUS poderiam ser evitadas com um bom sistema de atenção primária e controle de doenças crônicas”. 

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