Amazônia atrai projetos de inovação em meio a movimento para descentralizar produção de conhecimento

Amazônia atrai projetos de inovação em meio a movimento para descentralizar produção de conhecimento

Novo centro do Einstein em Manaus tem como objetivo impulsionar ecossistema de inovação com foco em biodiversidade, mudanças climáticas, equidade, transformação digital e empreendedorismo

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By Published On: 01/05/2024
Einstein inaugura Centro de Inovação em Manaus, na região da Amazônia

Cidade de Manaus, com o Teatro Amazonas ao centro. Foto: Adobe Stock Image

A Amazônia é considerada um santuário da biodiversidade mundial: pesquisadores estimam que a região abrigue 10% de todas as espécies de animais e plantas do mundo, segundo relatório divulgado em 2021 pelo PCA (Painel Científico para a Amazônia) – e muitas delas só são encontradas ali. Mas essa é apenas uma das particularidades que reforçam o status da região de campo fértil para pesquisas, inclusive na área da saúde: além do potencial da biodiversidade em si, há os impactos das mudanças climáticas e a necessidade de investimento em soluções em saúde para as demandas da população local.

“O bioma Amazônia desempenha um papel importante no que diz respeito a questões relacionadas à mudança climática e, além disso, representa uma parcela considerável da biodiversidade do mundo”, pontua o médico Rodrigo Demarch, diretor de inovação do Einstein. “Isso se traduz em potenciais descobertas de moléculas bioativas que podem ser usadas, entre outras coisas, no tratamento de doenças, estando a nossa atuação voltada à exploração da intersecção entre biodiversidade, questões climáticas e ação humana.”

Embora esse cenário seja um convite para parcerias que visem o investimento na produção de conhecimento científico e empreendedorismo local, a realidade ainda é penosa. De acordo com o estudo “Financiamento público brasileiro para pesquisas sobre biodiversidade na Amazônia”, publicado no início deste ano no periódico Perspectivas em Ecologia e Conservação, a região Norte recebe a menor parcela de incentivo de subsídios e bolsas de pesquisa federais quando comparada às demais regiões do país: em 2022, ela recebeu 13% das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e abrigou apenas 11% de todos os pesquisadores que atuam em programas de pós-graduação em biodiversidade.

Nos últimos anos, há um movimento de levar conhecimento científico e ampliar a presença de projetos de pesquisa para além do eixo Sul-Sudeste. Um dos exemplos mais recentes envolve a inauguração do Centro de Inovação do Einstein em Manaus, que tem o compromisso de impulsionar a equidade em saúde por meio de pesquisas e do desenvolvimento de tecnologias que levem mais acesso e qualidade – atendendo, principalmente, as necessidades locais.

Para o professor Antônio Mesquita, diretor da Agência de Inovação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), uma das instituições com sinergias com o novo centro, a percepção é de que, quando o assunto é a intersecção entre saúde, biodiversidade e inovação, a região amazônica se assemelha ao Vale do Silício, na Califórnia (EUA), conhecida por ser berço de algumas das maiores empresas de tecnologia e inovação do mundo. “Ter esse olhar estratégico para a região e desenvolver parcerias como essa para o desenvolvimento de projetos de inovação é muito importante. Esse movimento poderá auxiliar na busca por soluções de demandas de saúde, não só particulares como também do estado, e potencialmente escaláveis a outros locais.”

Novo Centro de Inovação em Manaus

A escolha pela capital amazonense não veio sem planejamento: ela faz parte dessa estratégia de descentralização da inovação no país – o Einstein já conta com um centro semelhante em Goiás, no Centro-Oeste, justamente buscando novos eixos de conhecimento. “Manaus tem várias particularidades relacionadas à saúde. As vulnerabilidades das diferentes populações locais, assim como de toda a região Norte do Brasil, merecem ser endereçadas com o desenvolvimento de soluções que supram essas necessidades”, observa Demarch.

Ele destaca que uma das principais preocupações ao longo do processo de desenvolvimento do centro, da idealização ao início das atividades, foi mapear o ecossistema de pesquisa e desenvolvimento já existente na região e a construção de uma relação de parceria com os agentes locais. O objetivo era identificar pontos de sinergia que valorizassem o conhecimento de quem já atua na área há mais tempo.

Outro ponto positivo é a proximidade com a Zona Franca e seu potencial de desenvolvimento tecnológico e da bioeconomia – além da possibilidade de parcerias com instituições de pesquisa locais, como as universidades federais e estaduais. “Há um polo industrial importante, com muitas indústrias e tecnologia, institutos de pesquisa e universidades já muito bem estabelecidas, que são fontes de conhecimento. Nosso intuito é também apoiar o desenvolvimento desse ecossistema de inovação que já tem algumas bases estabelecidas”, afirma Demarch.

Neste contexto, a unidade do Einstein irá desenvolver projetos de inteligência artificial, telemedicina e big data por meio da Lei da Informática na Amazônia. Mesquita complementa que a indústria 4.0, que contempla tecnologias como inteligência artificial, robótica, nuvem e internet das coisas, tem sido encarada como uma grande oportunidade de explorar a transversalidade entre tecnologia e saúde.

“Nós estamos acompanhando essa transformação digital e a mudança de cultura que vem junto e, na universidade, temos observado um boom de projetos nessa área, que contempla também a bioeconomia. Nós temos uma visão bastante profunda no que diz respeito a projetos de pesquisa na área de saúde e entendemos que deve haver um esforço transversal”, completa.

Inovação e equidade lado a lado na Amazônia

Aliado à tecnologia, o fato de ter profissionais de saúde que conheçam a fundo as populações que residem na região é um diferencial. Mais do que isso: o papel de médicos da família e demais agentes de equipes multidisciplinares é ainda mais relevante, visto que há uma grande carência de força de trabalho na área de saúde no Norte do país. Segundo a mais recente Demografia Médica, divulgada esse ano pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), enquanto o Sudeste foi a região com mais médicos a cada mil habitantes (3,76), o Norte ficou em último, com 1,73.

A visão de utilizar a inovação em prol da ampliação do acesso à saúde e da equidade está entre os objetivos do novo Centro de Inovação. E uma forma de fazer isso é por meio da transferência de conhecimento. “Enquanto o Einstein detém conhecimento científico e ferramentas de inovação muito interessantes, a UEA traduz e adapta isso para a realidade local por conhecer a região, os costumes e as populações tradicionais”, afirma o diretor da Agência de Inovação da UEA.

O fomento à criatividade e inovação na área de bioinformática para pesquisadores locais também faz parte do escopo do novo projeto inaugurado pelo Einstein. O Centro implementou um programa, com duração de 12 meses, que vai conceder 20 bolsas de incentivo, com apoio da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Os bolsistas contemplados terão acesso a capacitações em diferentes temas, incluindo propriedade intelectual, biodesign e modelo de negócios, além de estímulo para desenvolver inovações nas áreas de interesse do centro. “Há uma preocupação com o desenvolvimento regional, de apoiar os nossos alunos, de criar uma incubadora dentro da UEA juntamente com a área médica e estudar com o Einstein uma parceria de futuros projetos de inovação na saúde”, explica Mesquita.

Demarch destaca ainda o olhar do desenvolvimento econômico na região por meio da criação de startups. “Foram dois anos trabalhando junto a entidades locais, como a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), para que conseguíssemos mostrar para nossos parceiros as oportunidades de fazer investimentos naquela região e explorar essas intersecções tão relevantes para o cenário atual”, detalha.

Projetos em andamento

Alguns projetos já estão em andamento, como o realizado em parceria com a Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, que criará um algoritmo de apoio diagnóstico à leishmaniose cutânea – a ferramenta funciona offline e utiliza fotos de lesões de pele, o que facilita o acesso ao rastreio da doença em áreas remotas.

A leishmaniose cutânea é uma endemia naquela região, com 46 casos para cada 100 mil habitantes, cujo diagnóstico é feito por meio da raspagem na pele. Porém, muitas vezes, há dificuldade para se fazer o diagnóstico, seja porque não se tem acesso ao exame confirmatório, seja porque o paciente fica longos períodos aguardando na fila do especialista, ou ainda, por morar em regiões muito remotas, dificultando o acesso.

“O projeto propõe que essa equipe de saúde de atenção primária tenha no aplicativo o apoio necessário, facilitando o acesso à população e, caso o algoritmo aponte uma suspeita, o profissional faz a solicitação do exame para o diagnóstico mais preciso. Isso contribui também para um uso mais racional dos recursos de saúde, que já são limitados naquela região”, explica Demarch.

A ideia é que, uma vez concluído o projeto inicial, haja a possibilidade de expansão da plataforma para outras doenças relevantes na região. Segundo Demarch, este é só um exemplo de potencial de projetos que podem ser desenvolvidos na região amazônica.

“Somos um mercado grande do ponto de vista de saúde, um país continental com diferentes realidades socioeconômicas e essa combinação torna o ambiente favorável à inovação. Apesar dos desafios, nosso papel também é o de apoiar a construção e desenvolvimento de mecanismos que incentivem de maneira sistemática e estruturante essa transformação”, conclui.

Rodrigo Demarch - Centro de Inovação Einstein

Rodrigo Demarch discursa durante evento de inauguração do Centro de Inovação do Einstein em Manaus

Isabelle Manzini

Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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    Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

  • Fabricio Campolina

    Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.

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    Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

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