Alzheimer: os últimos avanços da ciência

Se o os conhecimentos sobre a doença progrediram muito pouco nos primeiros 100 anos, os avanços das últimas duas décadas têm nos trazido justificadas esperanças para um futuro promissor em relação ao seu tratamento e eventual controle ou cura.

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Há mais de 100 anos, Alois Alzheimer publicava o inquietante caso de uma paciente. Auguste D., de 51 anos, com déficit de memória e alterações comportamentais — achados que eternizaram o seu nome ligado a doença que havia descrito.

Apesar do fato de o primeiro caso ter acometido uma pessoa com idade menor que 60 anos, sabemos que a senilidade é uma das condições de maior risco para a doença. Se uma pessoa entre 50 e 60 anos tem um risco em torno de 1 para cada 2500 indivíduos, aos 85 anos este número sobe para cerca de 1 paciente acometido em cada 5 indivíduos.

Mas, caro leitor, não se assuste. Ou, pelo menos, não se apavore!

Se o os conhecimentos sobre a doença progrediram muito pouco nos primeiros 100 anos, os avanços das últimas duas décadas têm nos trazido justificadas esperanças para um futuro promissor em relação ao seu tratamento e eventual controle ou cura.

Um olhar para a doença

A primeira informação muito importante é que nem todo esquecimento é doença de Alzheimer. Muitos quadros podem estar associados a doenças de causas emocionais, hormonais e distúrbios de sono. Todas as queixas devem ser tratadas e investigadas. Portanto, a ida a um especialista é fortemente recomendada.

Por outro lado, devemos saber que a doença de Alzheimer é uma demência. Explico isso porque muitos familiares e pacientes me perguntam se o diagnóstico se trata de Alzheimer ou se é demência.

Cerca de 50% dos diagnósticos de todas as demências são doença de Alzheimer. A outra metade pode incluir quadros de demência vascular, doença por corpos de Lewy, demência fronto-temporal e seus subtipos como a afasia progressiva primaria, encefalopatia traumática crônica, hidrocefalia de pressão normal, entre os diagnósticos diferencias mais frequentes. Além disso, é preciso descartar quadros que podem parecer processos degenerativos e não o são.  Vejam que o diagnóstico correto é fundamental para a boa conduta terapêutica e, por sua dificuldade, exige a busca de profissionais especializados na área, e por vezes não raro uma segunda opinião, para que tanto o paciente como os seus familiares sintam-se seguros com os tratamentos e condutas.

Os avanços no diagnóstico

Para chegarmos a esta diversidade diagnóstica, foi necessário um progresso extraordinário da ciência, inicialmente entendendo os diferentes mecanismos e componentes fisiopatológicos, ou causadores destas condições clínicas, que envolviam proteínas como a beta -amiloide e tau na doença de Alzheimer, e proteínas tau, sinucleínas entre outras paras os outros diagnósticos.

A ciência é capaz de identificar estas diferentes proteínas em indivíduos vivos, através do exame do líquor (líquido da espinha), em alguns casos no sangue, exames de imagem funcional como PET com PIB compound, que nos mostra por imagens a presença destas proteínas no cérebro. Podemos incluir aqui a evolução de marcadores genéticos, que gradativamente têm contribuído com os diagnósticos diferenciais.

Mas ainda não acabou. As avaliações neuropsicológicas, ainda fundamentais no diagnóstico, não só da doença de Alzheimer, como para diferenciar as outras condições já citadas, estão em pleno processo de transição, da caneta e papel, com avaliações longas e cansativas para modelos que usam tecnologias computacionais como a Alemã Hasomed (rehacom). Há também o uso de Realidade Virtual como a equipamentos da Neurolign, que está sendo utilizado para testar pacientes com Síndrome Pós-Covid em estudo com pacientes no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e em atletas com risco de  concussão no Instituto de Ortopedia e Traumatologia, também do HC.  E ainda o uso de realidade aumentada com inteligência artificial a partir de um tablet que direciona para o possível diagnóstico através de algoritmos, cujos resultados já foram aprovados pelos órgãos reguladores europeus, ANVISA e FDA nos EUA. E o principal: estas tecnologias, já estão disponíveis no Brasil, o que é uma ótima notícia.

A evolução do tratamento

Você pode estar se perguntando: “mas será que o tratamento evoluiu alguma coisa?”. Desde 1993, uma nova classe de medicamentos para a época, os inibidores de uma enzima chamada acetilcolinesterase foi lançada no mercado, tendo como alvo o tratamento da doença de Alzheimer. Desde então, muita pesquisa tem sido realizada, com grande investimento de governos e da indústria farmacêutica. Em todo esse período, apenas mais uma medicação havia passado pelo crivo das agências reguladoras: a memantina, aprovada em 2003, para quadros moderados e avançados da doença. Até então as medicações em uso tinham uma finalidade predominantemente como agentes sintomáticos, mais do que modificadores do curso da doença.

Na área terapêutica, a grande notícia veio neste ano de 2021, com a aprovação de uma medicação que é um anticorpo monoclonal, o Aducanumab. O medicamento foi aprovado com certa controvérsia pelo FDA em junho último.

Sabemos que a medicação se propõe a diminuir ou impedir o acúmulo da proteína beta amiloide no cérebro, mas ainda é incerto se esta ação terá de modo cabal um papel modificador da doença. As barreiras, neste caso são seu alto custo, que deve ser comercializado nos Estados Unidos por valores entre 55 a 60 mil dólares por ano, e de seu real impacto sobre a doença.

Uma nova etapa na abordagem e no tratamento da doença foi inaugurada e, a meu ver, é um caminho sem volta.

Outra abordagem, não curativa, mas que tem mostrado bons resultados clínicos é a utilização de medicamentos da terapia canabinoide, em quadros de agitação e em diversas manifestações comportamentais destes pacientes, aqui incluindo não só a doença de Alzheimer, mas também outras demências. Para alguns pacientes o seu uso é inócuo, mas para outros tem trazido um impacto importante na qualidade de vida, não só do paciente como também de seus cuidadores.

Como podemos concluir, os avanços estão acontecendo. Ainda precisamos de muito mais, mas sem dúvida se compararmos o copo meio cheio ou meio vazio de dez anos atrás, com o atual, já consigo enxergá-lo meio cheio!

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