A saúde pós-pandemia trará novos – e grandes – desafios

Pouco tem se falado sobre o período pós-pandemia que, esperamos todos, terá início em breve. Neste ponto, cabe um alerta aos gestores das redes pública e privada: é hora de pensar no que virá

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Sem dúvida a pandemia de Covid-19 é um tema que merece toda a atenção das autoridades e da população. Desde as primeiras notificações de contágio, em dezembro de 2019, na China, até o estágio atual, com registro de mais de 90 milhões de pessoas contaminadas e 2 milhões de mortos ao redor do planeta em decorrência dessa doença, a humanidade foi instada a aceitar sua vulnerabilidade ante a fatos imprevistos que podem ameaçar seu futuro.

Essa não é a primeira pandemia registrada na história. Certamente não será a última. Isso exige de todos os governos, inclusive do brasileiro, colocar a saúde como item prioritário da agenda pública, o que significa torná-la objeto de planejamento constante, com propostas de ações de curto, médio e longo prazos, e garantia de recursos suficientes para fazer frente aos inúmeros desafios na área.

Num país como o Brasil, onde a desigualdade econômica e social torna vizinhos miseráveis e bilionários, essa engenharia é de extrema complexidade. Não basta apenas a capacidade técnica para formulação das medidas a serem adotadas. Também é preciso garantir infraestrutura, logística, financiamento e vontade política para tirar as ações das planilhas dos projetos para o campo da execução. Além disso, é preciso conseguir o apoio da população, que deve entender que o êxito pleno das ações em saúde também passa pela sua adesão.

No momento em que a Nação se prepara para o início de uma grande campanha de vacinação contra a Covid-19, todos esses elementos deverão ser contemplados para que se alcancem os objetivos esperados: reduzir o número de casos novos e diminuir a gravidade da doença. Contudo, esses são apenas alguns dos desafios que o País tem pela frente causados ou relacionados ao novo coronavírus.

Pouco tem se falado sobre o período pós-pandemia que, esperamos todos, terá início em breve. Neste ponto, cabe um alerta aos gestores das redes pública e privada: é hora de pensar no que virá. Os indícios de tempos tão ou mais conturbados que os atuais surgem nos indicadores do Ministério da Saúde e nos relatos das sociedades médicas de especialidade.  Todos mostram, nas linhas das planilhas, que a pandemia está comprometendo os esforços de prevenção a doenças de média e alta complexidade.

Em síntese, com a queda no número de exames de prevenção, os diagnósticos poderão ser cada vez mais tardios, o que implicará em tratamentos mais onerosos, em filas de espera maiores e o pior: em chances de cura reduzidas, em alguns casos. Em diferentes áreas da assistência e da atuação médica, esse fenômeno já tem sido percebido.

As causas são múltiplas e se sobrepõem: a necessidade dos serviços concentrarem esforços no cuidado dos pacientes com covid-19; a preocupação em reduzir a circulação das pessoas nos estabelecimentos para evitar a transmissão do coronavírus, o que tem restringido o número de consultas e exames; e os sentimentos de medo e de insegurança que têm feito milhares de pacientes optarem por não buscar ajuda médica diante de sinais ou sintomas, abandonarem tratamentos ou não comparecerem em avaliações de rotina.

Entidades médicas de todo o País relatam queda significativa na produção de exames preventivos para doenças como câncer de pele, próstata e mama, além de cirurgias eletivas e outros procedimentos médicos, durante a pandemia. Pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, a pedido de um laboratório, mostrou que 64% dos brasileiros declararam que adiaram ou cancelaram serviços de saúde em 2020, entre eles check ups preventivos (22%) e cirurgias eletivas (21%). A pesquisa ainda apontou que o diagnóstico de novos casos de câncer caiu nos primeiros meses da pandemia.

Em maior ou menor grau, as doenças cardiovasculares e doenças crônicas, como hipertensão arterial, também tiveram queda no número de novos diagnósticos e nas consultas de acompanhamento. De acordo com pesquisa do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), as cirurgias de urgência também tiveram uma redução significativa durante a pandemia de Covid-19: 60% entre fevereiro e maio de 2020 em comparação ao mesmo período de 2019.

Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) indicam queda de 70% no total de cirurgias voltadas ao câncer e de até 90% das biópsias enviadas para análise. Com isso, pelo menos 50 mil brasileiros deixaram de receber diagnóstico de câncer nos dois primeiros meses de pandemia (entre março e maio). De acordo com a pesquisa, as cirurgias mais adiadas foram as de colorretal, mama, estômago, pâncreas e pulmão.

Já a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) divulgou informações onde aponta redução de 18% nos pedidos de exame de Antígeno Prostático Específico (PSA) em uma rede nacional de laboratórios no período de março a junho de 2020 comparado ao mesmo período do ano anterior. O exame de PSA é o marcador mais utilizado no auxílio ao diagnóstico de câncer de próstata.

Outra análise que aponta prejuízos da pandemia vem do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). De acordo com informações divulgadas, houve diminuição de 36%, na média nacional, da realização de exames para diagnóstico de retinopatia diabética pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre janeiro e agosto, em relação ao mesmo período do ano anterior. A complicação acomete as pessoas com diabetes dos tipos 1 e 2 e ocorre quando o excesso de glicose no sangue danifica os vasos sanguíneos dentro da retina. Sem diagnóstico e tratamento precoces, essa complicação pode levar à cegueira.

Por sua vez, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) também verificou o impacto negativo da pandemia na prevenção ao câncer de pele, a mais comum entre as neoplasias, e que, ao contrário do que muitos pensam, causa óbitos e sem o adequado manejo pode ser a fonte de metástase em outros órgãos. Em 2019, de acordo com a SBD, foram 210.032 pedidos de biópsias para detecção do câncer de pele, entre janeiro e setembro. Em 2020, no mesmo período, foram 109.525. Ou seja, 48% a menos.

No fim de 2020, com sua campanha Dezembro Laranja, a SBD buscou chamar a atenção de profissionais e da população para esse problema, bem como para a necessidade da adoção de medidas preventivas. A atenção dos dermatologistas ao tema prosseguirá em 2021 nas consultas, em que os esclarecimentos sobre os riscos serão compartilhados com pacientes e familiares. Contudo, esses alertas podem chegar tarde em alguns casos.

Atualmente, assiste-se ao tratamento midiático dado à luta contra a Covid-19 que, não raras as vezes, o sensacionalismo das imagens e declarações superam o interesse técnico e científico. Ao apresentar os dados gerados por instituições com vocação inconteste para a defesa da qualidade na assistência e o avanço da medicina não se espera a abertura de uma nova frente semelhante. Contudo, não se pode ignorar o recado que os indicadores transmitem: é tempo de pensar nas ações que serão tomadas para resolver os problemas que estão se acumulando. Afinal, a construção do futuro da saúde da Nação depende de reflexões e ações feitas no presente.

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