A Saúde não precisa de um “novo normal”

Para a surpresa de todos, a pandemia de covid-19 escancarou uma verdade absolutamente inconveniente sobre a Saúde no mundo: não havíamos evoluído tanto quanto imaginávamos.

               
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Uma vez ouvi em um documentário que, se a história completa do planeta Terra fosse representada em um período de 24 horas, os seres humanos apareceriam apenas nos 2 minutos finais. Desses, a história da Medicina provavelmente corresponderia a poucos segundos.

Ainda assim, deu fazer bastante coisa. O progresso foi inegável e muita coisa ocorreu desde o surgimento da Medicina lá na ilha de Kos: descobrimos os antibióticos, criamos o Raio-X e a anestesia. O genoma humano inteiro foi sequenciado, desenvolvemos a imunoterapia para tratar cânceres. Chegamos até a nos deparar com manchetes sobre a realização da primeira cirurgia à distância, por meio de tecnologia 5G. Sim, dava até pra acreditar que a Saúde havia evoluído muito e se tornava cada vez mais moderna.

Até chegar um microorganismo novo. Extremamente contagioso. Um vírus que podia, inclusive, ser transmitido por pessoas assintomáticas e para o qual não existe vacina nem tratamento medicamentoso. Sobre o qual ninguém tinha tido aula na faculdade. Um vírus que se espalhou pelo mundo todo com uma velocidade nunca antes vista.

E não. Não foi a primeira vez. Já havia acontecido outras vezes na história do planeta: cólera, peste bubônica e a gripe Espanhola, só pra citar alguns exemplos. E foi devastador porque, ao contrário de hoje, tratava-se de um período onde mal existiam medicamentos.

Também não dá pra dizer que não tinha como para prever. Em menos de duas décadas vimos cinco epidemias: SARS, H1N1, MERS, Ebola e Zika virus. E o intervalo entre elas é cada vez menor. 

O curioso é que em um mundo com uma medicina tão evoluída, com uma miríade de recursos e no qual chega até a se discutir impressão 3D de órgãos, não deveria ser tão difícil combater uma “gripezinha”. Como disseram vários governantes, a preocupação só podia ser exagerada.

Só que não foi assim. E, para a surpresa de todos, a pandemia de COVID-19 escancarou uma verdade absolutamente inconveniente sobre a Saúde no mundo: não havíamos evoluído tanto quanto imaginávamos. 

Dentre diversos exemplos, o coronavirus evidenciou a imaturidade das cadeias de suprimento frente a emergências globais, a falta de informação integrada e transparência entre os países quando o assunto é saúde, os processos analógicos de vigilância de doenças e a infra-estrutura insuficiente para tratar os indivíduos infectados. Isso sem nem mencionar o quanto escancarou o abismo entre classes e a falta de cobertura a populações desfavorecidas.

Alvin Toffler dizia que “os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não sabem ler ou escrever. Mas sim aqueles que se recusam a aprender, desaprender e reaprender”. Eu não poderia concordar mais. E, nessa linha de pensamento, acredito que é hora de desaprender o que definimos como Saúde: tem que ser mais do que contratar médicos e disponibilizar leitos ou construir hospitais.

É preciso tirar o foco do modelo reativo, lançar mão de inteligência analítica e fazer uso das novas tecnologias de forma a caminhar da contingência em direção à predição de agravos. Seja para evitar novas pandemias ou doenças crônicas, como o diabetes e a hipertensão. Tudo isso com base na Ciência e nos dados. Não em opiniões muitas vezes questionáveis. É necessário encontrar um modelo que permita criar políticas de saúde capazes de evitar problemas ao invés de remediá-los. De dirigir olhando para a frente, não para o retrovisor.

Assim como ocorre quando tentamos instalar um programa novo em um computador antigo, enquanto insistirmos em resolver problemas do século XXI com uma mentalidade do século XX (ou até do século XIX, em alguns locais…), o sistema vai continuar travando. Essa foi a maior lição que o COVID-19 nos deixou, até o momento.

“Atualizar o sistema” talvez envolva entender, inclusive, que garantir saúde no século XXI seja uma tarefa que extrapola as fronteiras de cada país. E que pode vir a ser necessário discutir, enquanto humanidade, estratégias para garantir que todo país tenha capacidade de antecipar e responder a doenças adequadamente, estando apto a identificar, tratar e reportar novas doenças para o mundo com prontidão. Afinal, em um mundo globalizado, é natural que os vírus também o sejam. E que novas pandemias não são uma questão de “se”, mas sim de “quando”.

As perguntas sobre como começar esse processo são muitas. Ainda não tenho respostas. No entanto, minha única certeza é que nada disso será resolvido com um “novo normal”. O que precisamos é usar a pausa forçada que pandemia atual trouxe como catalisador para a construção de um “novo melhor” mesmo.

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