A realidade do uso medicinal da maconha, o que há por trás da fumaça

Apesar do interesse crescente em pesquisas clínicas, algumas barreiras deverão ser rompidas ate que os derivados da Canabis sejam absorvidos pela comunidade médica como uma nova arma no arsenal terapêutico

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Até os anos 20 do século passado a maconha, marijuana e outras dezenas de sinônimos para os compostos extraídos da planta Canabis Sativa, cujas variedades mais populares são a maconha e o cânhamo, eram considerados legais e de uso muito comum, principalmente nas camadas mais pobres da população. No Brasil foi introduzida provavelmente por duas vias, os escravos e os próprios portugueses, que inclusive utilizavam outras partes da planta na confecção de suas embarcações, como a fibra do cânhamo em suas velas.

Nos Estados Unidos a proibição veio juntamente com a lei seca, que incluiu narcóticos no pacote de drogas ilícitas. Inicialmente, a marijuana, muito utilizada por mexicanos não havia sido incluída como narcotico, mas o responsável da divisão de controle Estrangeiro que integrava o comitê de proibição, Henry Aslenger, por opiniões pessoais e sem fundamentação teórica, a adicionou na lista de entorpecentes.  A lei seca teve fim em 1930 e liberaria o uso recreacional do álcool e da marijuana, porem as outras substâncias incluídas como ilícitas 10 anos antes, continuaram ilegais pelo recém-criado Departamento Federal de Narcóticos, para combate da cocaína e do ópio. Mas logo, H. Aslenger assumiu a chefia deste comitê e incluiu a Marijuana/Maconha nesta lista.

Na mesma década de 30, o Brasil, bastante influenciado pela política antidrogas americana, começou a reprimir o uso da substância, já muito utilizada pela camada mais pobre da população, formada por grande contingente de negros recém libertos. Alegavam que o uso da droga era motivo de arruaças e não se preocupavam em dissimular algum preconceito associado a população que a utilizava.

E bom frisar que o álcool nunca sofreu qualquer tipo de restrição.

No Brasil o uso de Canabidiol (CBD) para uso medicinal passou a ser tolerado de modo oficial, pela Anvisa desde 2014, para uso inicialmente apenas para Epilepsia (de difícil controle) e Autismo.

Em 2016 o leque de patologias autorizadas aumentou e a partir de 2019, a autorização para a importação do produto não precisa da indicação de seu uso, desde que determinada por um médico em receituário regular.

A partir do segundo semestre de 2020, a aquisição do produto poderá ocorrer em farmácias regulares do país necessitando de receituário azul, tipo B, para os compostos apenas com CBD e receituário amarelo tipo A quando a medicação tiver em sua fórmula THC, que e a substância psicoativa da Canabis.

Oficialmente os compostos extraídos da Canabis sativa contem muitos outros elementos além do CBD (Canabidiol) e THC (Tetra-Hidro-Canabidiol), porem para a sua regulamentação, apenas estas duas substâncias são consideradas no Brasil.

E considerado CBD (receita azul tipo B) compostos com até no máximo 0,2% de THC em sua composição. Quando acima disto, já e necessária a receita tipo A, amarela, pois os efeitos psicoestimulantes já se fazem mais consideravelmente ativos.

No Brasil, encontramos tanto para importação oficial, com aval da ANVISA, como para a futura venda em farmácias, compostos com extração do óleo puro de um subtipo da Canabis Sativa , o Cânhamo que e rico em CBD e pobre em THC, em sua forma acida cujo o composto e o CBDA, que se aquecida e transformada em sua forma descarboxilada (CBD) ambas com THC em quantidade menor que 0,2%, outra forma purificada, que contem apenas o CBD e uma quarta formulação com teores maiores que 0,2% de THC (receita tipo A , amarela). 

Segundo o DR. Orrin Devinsky, diretor do  Centro de Epilepsia do Instituto Langone da Universidade de Nova Iorque, vários estudos tem mostrado que o CBD e seguro e não causa dependência e nem efeito psicoativo o que e provocado pelo THC.

Assim como desde 2014 no Brasil, em  2018 nos Estados Unidos, o FDA (Food and Drug Administration) determinou que remédios a  base de CBD purificado eram eficazes na  redução de crises epiléticas em certas epilepsias de difícil controle. Este ato, seria o primeiro passo para iniciar a descriminalização do Canabidiol para uso médico e um estímulo para estudos clínicos com suas diferentes substancias em renomados centros de pesquisa pelo mundo.

Por outro lado, estimulou em diversos pontos do planeta o uso indiscriminado de extratos a base de canabidiol, sem o devido controle de sua composição, o que muitas vezes leva ao consumo de substancias oferecidas em um mercado paralelo, ricas em THC, sem o devido controle medico e que podem ocasionar em pacientes psiquiátricos surtos psicóticos, por exemplo em portadores de esquizofrenia.

O ano de 2014 e considerado por muitos como um divisor de águas na pesquisa canabinoide. Antes de 2014 o predomínio dos estudos pré-clínicos nos trazia dados provenientes de pesquisas em animais e cultura de células “in vitro” que apontavam para incontáveis possibilidades do uso do CBD para o tratamento de doenças que incluem Parkinson, Alzheimer, dor crônica e até mesmo o câncer. Apesar desta visão otimista e ampla sobre as mais diferentes doenças devemos ser cautelosos e saber separar os estudos feitos na área básica e esperar respostas vindas de estudos clínicos, que nos apontarão quais serão as aplicações clínicas para este novo universo terapêutico. Os mecanismos de ação do CBD e dos receptores canabinoides precisam ser mais bem estudados e entendidos na prática clínica e apesar de atuarem nos mesmos receptores do SNC para o THC, o CBB tem uma ação inibitória sobre este, o resulta em não termos efeitos psicoativos desta molécula. Além disto já sabemos em ensaios clínicos que o CBD tem ação não só anticonvulsivante, mas também em receptores da dor, tendo boa aplicabilidade em alguns casos de cefaleias e dores crônicas. Outra ação que já tem sido confirmada em estudos clínicos e sobre o aumento da serotonina, semelhante a classe de medicamentos antidepressivos como a fluoxetina ou o escitalopran, mas mais estudos nesta área são necessários.

Como a volta a legalidade do CBD e relativamente recente, uma imensidão de ensaios clínicos deverá ser realizada para determinar a real aplicabilidade nas diferentes doenças, e para isto tanto os laboratórios, como os pesquisadores estão muito animados!

Quanto ao uso combinado do CBD com o THC, já sabemos que alguns estudos clínicos mostraram uma boa eficácia contra a espasticidade, tanto na esclerose múltipla como em pacientes pós AVC, porem o uso de THC na composição da medicação pode ser danoso a indivíduos com surtos psicóticos, por outro lado o uso isolado de CBD em quadros psicóticos pode ser positivo para o paciente.

Outros dados provenientes de estudos clínicos, nos mostram que além do citado acima, não devemos usar CBD associado ao ácido Valpróico (medicação comum em epilepsia) e que a administração do CBD deve ser iniciada em doses baixas e aumentada de acordo com a necessidade de cada paciente.

Apesar do interesse crescente em pesquisas clínicas, algumas barreiras deverão ser rompidas ate que os derivados da Canabis sejam absorvidos integralmente pela comunidade médica como uma nova arma no arsenal terapêutico que dispomos.

Será necessário tirar o estigma de droga ilícita e troca-lo pela condição de medicamento, embasar os achados terapêuticos através de pesquisas clinicas metodologicamente seguras e combater a ideia mítica que estaríamos diante de uma substancia com poderes curativos ilimitados , retirando o rotulo de panaceia e de seguidores da pseudociência que enxergam suas propriedades quase como seguidores de uma seita , para fincarmos um alicerce seguro da verdadeira pesquisa cientifica em benefício de nossos pacientes!

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