A perigosa evolução da Covid-19 no Brasil e no mundo

O mês de março de 2021 foi o pior mês da pandemia de coronavírus no Brasil, com 66.868 mortes. Como comparação, o segundo pior mês desde que coronavírus circula pelo país foi julho de 2020, com 32.912 mortos.

315

Vivemos hoje, começo de abril de 2021, o pior momento da Covid-19 no Brasil, uma pandemia que se iniciou em fevereiro de 2020, quando foi diagnosticado o primeiro caso de coronavírus em território brasileiro.

O mês de março de 2021 foi o pior mês da pandemia, com 66.868 mortes. Como comparação, o 2º pior mês da pandemia foi julho de 2020, com 32.912 mortos.

Em algumas partes do Brasil, vivemos uma situação mais grave que qualquer país no mundo já experimentou. O maior número de novos mortos por milhão por dia de um país aconteceu em Portugal, com 24,61 por milhão em 31 de janeiro de 2021. O maior número anterior tinha sido da Bélgica, com 22,74 novas mortes por milhão em 17 de abril de 2020.

O estado do Amazonas no dia 2 de fevereiro de 2021 teve 32,57 mortes por milhão e a cidade de Manaus especificamente chegou a 48,28 mortos por milhão em 3 de fevereiro de 2021.

Usando a média móvel de sete dias, o pico de casos da Covid-19 em 2021 teve um incremento de 68% em relação ao pico na 1ª onda em 2020. O aumento de mortes por Covid-19 entre 2020 e 2021 foi de 184%, um valor quase três vezes maior que o número de casos, o que aponta para uma situação de aumento da transmissão e da letalidade, provavelmente relacionada com o surgimento de novas variantes mais agressivas no novo coronavírus.

Esses números mostram claramente a magnitude do agravamento da situação da pandemia no Brasil. A Covid-19 continua sendo uma doença marcada pela gravidade, pela incerteza e pela falta de informação detalhada sobre a doença e sobre a sua evolução.

A falta de informação em tempo real, complexa e detalhada, também dificulta a capacidade de diagnosticar a situação e a sua evolução e de definir políticas e ações eficazes para controlar a doença. Ao longo desses últimos 14 meses aprendemos pouco em relação a políticas de distanciamento e tivemos uma evolução pobre no desenvolvimento de tratamentos eficazes.

O ponto muito positivo foi o desenvolvimento de vacinas altamente eficazes, que aconteceu em tempo recorde, mas o surgimento de variantes mais agressivas torna incerto o papel das vacinas no decorrer do tempo. Atualmente, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, temos 269 vacinas em desenvolvimento, sendo 85 em fase clínica e 184 em fase pré-clínica. Das vacinas em fase clínica, 24 estão em fase III e 4 estão em fase IV. Em função da velocidade de desenvolvimento das vacinas, do surgimento das variantes e da necessidade de dados de eventos adversos no longo prazo, é necessário que seja feito um acompanhamento detalhado da eficácia e dos efeitos colaterais das vacinas após a sua liberação de uso.

O Brasil vive hoje o pior momento da Covid-19 no mundo, mas esse papel vem sendo vivido de forma alternada por diferentes países desde o surgimento da pandemia, e é pouco provável que o Brasil seja o último país a viver essa realidade. Já existem hoje na Europa alguns sinais que apontam para o risco de um recrudescimento da doença por lá. As incertezas quanto a Covid-19 não se restringem ao Brasil, elas valem para todo o mundo.

Dois momentos devem ser observados em relação à Covid-19

O primeiro se refere ao que vai acontecer nas próximas 2 a 4 semanas, que vai ser uma consequência da transmissão que aconteceu nas semanas anteriores. O número de casos e internações vai independer do que façamos hoje, mas a mortalidade pode ser amenizada. O fundamental é preparar o sistema de saúde para atender da forma mais eficiente possível o volume de pessoas que vai chegar para ser cuidada. O problema é que o aumento da demanda é muito grande e muito rápido, e isso acontece em um sistema de saúde que já está sobrecarregado.

O ideal seria conseguir projetar, com base nos novos casos que aconteceram nas semanas anteriores, o volume de pessoas que vai necessitar de cuidado e qual a demanda específica de cada cuidado e profissional de saúde. Aumentar agudamente a eficiência e a capacidade do cuidado é algo que demanda agregar rapidamente profissionais qualificados e equipamentos sofisticados. Isso é um desafio monumental e muito difícil de ser conduzido. Os sistemas de saúde não são desenhados para trabalhar com qualquer tipo de ociosidade.

O segundo momento é aquele que decorre do que fizermos a partir de hoje. Isso vale para o controle da transmissão e para a vacinação. Quanto ao tratamento com remédios, infelizmente, apesar de muitas pesquisas em andamento, não dispomos hoje de medicamentos com um nível de efetividade que permita controlar de forma significativa a grave evolução da doença.

Em relação a transmissão, o surgimento de novas variantes aumenta a possibilidade de novos casos e consequentemente o risco de internações e mortes. Ainda não temos informação sobre o impacto das novas variantes em medidas como uso de máscaras, afastamento entre as pessoas, estar em locais mais ventilados.

O volume de novos casos pode ser um ponto de partida para que possamos projetar a necessidade de cuidado ambulatorial e hospitalar nas semanas futuras, que vão ser uma consequência da transmissão atual. É importante que a informação sobre os casos seja detalhada, para que seja possível saber quanto dos casos novos são de pessoas assintomáticas, sintomáticas ambulatoriais, internadas em enfermaria e UTI. Essa informação vai permitir projetar o total de internações, o tempo médio de evolução da doença e da internação, o uso de recursos humanos e de equipamentos. É fundamental planejar, colher, estruturar, analisar e usar a informação trabalhando toda a complexidade e detalhamento necessários.

Sobre o isolamento

A decisão de entrar em programas de distanciamento mais radicais é difícil, mas ainda mais difícil é sair do isolamento de uma forma segura e planejada. As ações de distanciamento social são hoje uma reação ao momento e não uma decisão consciente baseada em informações colhidas previamente com base em distanciamentos anteriores que testaram diferentes níveis e formas de distanciamento. Por temos essas idas e vindas que acontecem todo o tempo, sem que a subsequente seja mais planejada e eficiente, a evolução da Covid-19 é acima de tudo definida pela própria doença.

O que facilitaria a saída de medidas de distanciamento seria a existência de medicamentos eficazes nas diferentes fases da doença ou vacinas eficazes que fosses administradas em programas de vacinação eficientes. Não dispomos hoje de medicamentos que atendam essa demanda e nosso foco nesse momento tem que ser nas vacinas.  O surgimento das variantes também agrega uma dificuldade adicional no uso das vacinas.

Ainda temos muito a aprender em relação a doença, as variantes e as vacinas.

Diante do cenário atual, o importante é que as pessoas se protejam o máximo possível. Infelizmente não é possível saber nesse momento quando a pandemia vai estar controlada, como ela vai evoluir e qual vai ser o tamanho do impacto dela nas pessoas e na sociedade.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui