A história da memória: o homem que parou no tempo

Como Henry Molaison ajudou a ciência a entender os mecanismos por trás da memória

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Durante o meu curso de medicina e mais profundamente em minha residência de Neurologia tive que estudar um intrigante caso, na época denominado “Caso H. M.”.

Apesar de interessante e enriquecedor, H.M. para mim não tinha um rosto ou ao menos um nome, e habitava a minha mente no espaço que fica entre o real e o imaginário. Algo que sabemos que existe, mas não é palpável!

Pois bem, hoje sabemos com detalhes quem foi H.M. e sua história. O seu caso ajudou a ciência a entender muitos aspectos sobre o funcionamento da memória.

H.M., chamava-se Henry Molaison, era um garoto americano de classe média, nascido em 1926, que aos 7 anos de idade após bater a cabeça, passou a ter crises convulsivas que apesar de todos os esforços na época, não estavam totalmente controladas. Estas crises foram piorando, e prejudicavam muito a qualidade de vida de Henry. Aos 27 anos de idade, seu médico sugeriu a ele um tratamento radical que se iniciava na época, a cirurgia para epilepsia.

Como H.M. tinha crises que se iniciavam nos dois lados do cérebro, mais precisamente na região do hipocampo, no lobo temporal (região que hoje sabemos estar relacionada com a memória e é acometida nas fases iniciais da doença de Alzheimer), a opção era a realização de uma cirurgia que retirasse parte desta area (hipocampo) dos dois lados do cérebro.

Em 1953, a cirurgia foi realizada. Do ponto de vista da epilepsia foi um estrondoso sucesso, mas o que os médicos não sabiam é que a verdadeira contribuição de Henry para a medicina começaria exatamente a partir daquele ponto.

O paciente aparentemente ficou normal, falava, andava, comia sozinho, conversava sem problemas. Tudo que ele sabia antes dos 11 aos de idade mantinha-se preservado após o ato cirúrgico e algumas lembranças anteriores há 2 anos da cirurgia também! No entanto, Henry Molaison seria incapaz de aprender coisas novas, mesmo as mais simples,  que pudesse lembrar depois. A cada dia, minutos depois que os médicos ou pessoal de enfermagem entravam no seu quarto era como se nunca tivessem estado ali antes.

Os cumprimentou por anos como se fosse a primeira vez que os conhecia. O seu caso foi intensamente estudado pela medicina e em especial por uma psicóloga chamada Brenda Milner, que elucidou de forma científica os mecanismos da memória de H.M. Estes conhecimentos são um dos pilares do conhecimento da neuropsicologia até os dias de hoje.

Henry Molaison faleceu aos 82 anos e residia em um lar em Connecticut nos Estados Unidos.  Seu cérebro foi doado à universidade da Califórnia em San Diego e um atlas de estudo sobre ele serve à ciência até hoje.

Há relatos que já idoso, Henry se viu acidentalmente em um espelho e assustou-se pois não reconheceu a sua própria imagem, afinal em seu cérebro ele se enxergava como ele era aos 27 anos, parado no ano de 1953.

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