A culpa é dos smartwatches?

Cardiologistas têm relatado que recebem, semanalmente, uma a duas consultas originadas exclusivamente de pacientes que relatam ter recebido algum alerta de seus relógios inteligentes

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“Só conseguimos mudar aquilo que medimos e quantificamos.” A frase pode até ser de um guru da gestão chamado Peter Drucker… Mas, para mim, ela se aplica perfeitamente ao uso de pulseiras fitness e relógios inteligentes (ou smartwatches, no inglês) por parte da população em busca de uma melhor relação com a própria saúde.

O apelo é grande: eles permitem que se tenha visão de inúmeros fatores que afetam a saúde de um indivíduo. Da quantidade de passos que se dá ao longo de um dia, à qualidade do sono ou quantos lances de escada se sobe diariamente. Tanto que hoje é conhecida a tendência do quantified self (ou “eu quantificado”), que consiste em fazer uso da tecnologia de maneira a coletar dados sobre a própria vida. Trazendo a frase do Peter Drucker para a realidade da saúde, isso possibilita identificar hábitos ruins e, portanto, agir de maneira a transformá-los em posturas mais saudáveis. No fim do dia, é isso que permite às pessoas assumir um maior protagonismo em relação à própria saúde.

Não é surpresa que o uso destes dispositivos esteja se popularizando. Cerca de 1 em cada 5 norte-americanos já possuem um. No Brasil, a venda deles aumentou em 265% no primeiro semestre de 2020, quanto comparado com o mesmo período em 2019 (ainda não há dados de 2021).

Desde 2018, eles começaram a ser usados para mais uma finalidade:  detectar alterações no ritmo cardíaco. Foi nesse ano que o apple watch recebeu a liberação por parte do FDA, a “Anvisa dos EUA”, para disponibilizar esse tipo de análise a seus usuários.  Surge, então, outra proposta de valor bastante interessante:  alertar precocemente pacientes no caso do surgimento de alterações nos batimentos cardíacos sugestivas de arritmias para que os mesmos pudessem procurar seus médicos antes que complicações (como AVCs) ocorressem.  

Não foi de se espantar que o número de pessoas que procuram seus médicos em decorrência de alertas que recebem de seus smartwatches começasse a aumentar. Cardiologistas têm relatado que recebem, semanalmente, uma a duas consultas originadas exclusivamente de pacientes que relatam ter recebido algum alerta de seus relógios inteligentes.

Naturalmente, dentre essas consultas, há casos que se confirmam e “alarmes falsos”.  No primeiro grupo, é possível citar casos como o de um veterinário do Texas que ganhou um apple watch de presente de um sobrinho e, mesmo sem ter sintoma algum, foi surpreendido por um alerta dizendo que seu coração estava batendo em um ritmo diferente do usual. Ao procurar seu cardiologista, foi confirmada uma fibrilação atrial e iniciado tratamento precoce. Aqui, caso o alarme não tivesse ocorrido, esperar pelos sintomas poderia ser caro demais e aumentar os riscos de AVC.

Só que, naturalmente, também começaram a ocorrer casos de alarmes falsos (ou “falsos positivos”): aqueles casos em que o alerta ocorreu mas uma arritmia não foi diagnosticada ao se realizar uma avaliação médica e testes diagnósticos. Um estudo feito por pesquisadores da Mayo Clinic demonstrou que, em uma amostra de 264 usuários de apple watch, apenas 11,4% dos alarmes de pulso anormal gerados realmente se traduziram em um diagnóstico confirmado. Isso faz com que os relógios sejam criticados duramente por muitos médicos, que afirmam que eles causam mais problema e ansiedade do que ajudam.

Sim, o relógio é inteligente. Mas não substitui seu médico”, diriam vários colegas, como crítica a pacientes que levam a sério os alertas de seus smartwatches. E essa percepção é corretíssima. Ainda bem. Só que aqui vem o ponto que quero explorar:  por que encarar isso sob a ótica de substituição ou competição entre médico e relógio? Ou médico e tecnologia?

Com falsos positivos ou não, avançados o suficiente ou não, prontos e adequados para essa tarefa ou não, é impossível contestar que o advento dos wearables e smartwatches traz uma janela para outros 364 dias fora da data da consulta ou do checkup anual, no consultório ou no hospital, que são quando a saúde realmente acontece.

Os alertas de smartphones são apenas mais um exemplo da oportunidade que a tecnologia traz: de que os médicos se familiarizem com as novas tecnologias ao invés de combatê-las e criticá-las.  Que comecem a se envolver em estudos que possibilitem trabalhar em conjunto com as empresas de tecnologia para desenvolver dispositivos que agreguem mais valor às suas rotinas médicas e que permitam entregar um cuidado ainda melhor aos pacientes. E, finalmente, que desenvolvam modelos de engajamento com seus pacientes que consigam ir além das fronteiras do consultório ou do hospital.

A tecnologia é implacável e invariavelmente transforma a maneira como as pessoas interagem e trabalham. A Medicina não é exceção nesse processo. Se adentrarmos o mundo digital enquanto médicos, teremos a chance de fazer com que toda essa transformação seja guiada forças de dentro pra fora. Não de fora para dentro, sendo imposta a nós. E poderemos decidir como e onde essa tecnologia deve ser aplicada para trazer melhores resultados e o que é melhor deixar feito da maneira antiga.

Daí, ao invés de tentar prever como vai ser uma consulta médica daqui a vinte anos ou temer que as novas tecnologias sejam o asteroide que vai nos dizimar da mesma forma que fez com os dinossauros, podemos usar essas ferramentas para construir o futuro que é melhor para nós e para os pacientes. Hoje.

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