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Fórum Oncoguia discute a importância de priorizar o câncer no mundo pós-pandemia

12ª edição do Fórum Oncoguia debateu o cenário oncológico do Brasil, apontando os principais obstáculos enfrentados e trazendo soluções

               
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(conteúdo oferecido por Oncoguia)

Se o câncer já era um desafio para a saúde do país, hoje, dois anos após o início da pandemia, o desafio é ainda maior. O cenário de dificuldades de diagnóstico e de acesso a tratamentos se agravou e a fila, que já era grande, aumentou. Enquanto o ano de 2022 se apresenta como um momento de retomada no contexto da pandemia, este também é um ano para nortear os próximos passos além da Covid e estabelecer prioridades. A oncologia e o cuidado com os pacientes devem estar no radar. Foi essa a proposta do Instituto Oncoguia, que realizou entre 26 e 29 de abril, o 12° Fórum Oncoguia, com o tema “Priorizando o Câncer além da Pandemia”.

Mais do que trazer o diagnóstico do cenário da oncologia no Brasil, o evento, com mais de 60 palestrantes – entre gestores, profissionais de saúde, parlamentares e pacientes — apresentou propostas e caminhos para que o câncer entre na pauta, seja na saúde pública ou suplementar. A edição, totalmente online, contou com mais de 2.800 inscritos.

Para os brasileiros, câncer deve ser prioridade

A discussão começou com a apresentação dos resultados de uma pesquisa, com abrangência nacional, realizada pelo Instituto Oncoguia em parceria com o DataFolha. O resultado mostrou que 63% dos brasileiros elegeram o câncer como o tipo de doença que deveria ser priorizada pelo governo. Além disso, 42% deles associam a doença a sentimentos negativos, citando a morte com frequência.

Para apresentar os achados da pesquisa, a fundadora e presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, deu início às discussões do Fórum exibindo o cenário atual da oncologia, no qual, nos últimos três anos, mais de 50% de todos os tipos de câncer diagnosticados começaram o primeiro tratamento já nas fases localmente avançadas ou metastáticas, quando as chances de cura são reduzidas em comparação com os estágios iniciais. 

Fórum Oncoguia - Luciana Holtz
Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia

Na visão dela, “é preciso que o câncer seja tratado de forma prioritária e não é só o Oncoguia que diz isso, é a maioria da população brasileira, como indica a pesquisa. Além disso, o perigo de ter percepções tão negativas sobre o câncer, como mostrou o estudo, é que isso pode ser um sentimento paralisante, que impede que as pessoas se cuidem e busquem ajuda diante de qualquer sintoma”. 

Impacto da pandemia no cenário oncológico

Na sequência das discussões, Paulo Hoff, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, apresentou um panorama geral dos impactos da crise sanitária por Covid-19 no setor da oncologia. Ele explicou que, além dos novos pacientes com câncer que procuram atendimento, há também todos os que foram diagnosticados tardiamente por conta da pandemia, temendo infecções por coronavírus durante a realização de exames de rotina:

“Além da demanda de pacientes precisando de atendimento oncológico ser maior, elas também são mais complexas nesses casos diagnosticados com atraso, pois o paciente já chega com um estágio avançado da doença que poderia ter sido curada ainda no início, com uma cirurgia, mas que precisará de um tratamento mais complexo e sistêmico”.

Hoff também mencionou projeções realizadas pelo sistema de saúde do Reino Unido, que estima que nos próximos cinco anos a mortalidade por causa do câncer aumente em 20%, o que, segundo ele, é uma consequência dos atrasos de diagnóstico por conta da pandemia – fato que provavelmente ainda será percebido no Brasil. O debate se debruçou também sobre o impacto da pandemia nos diagnósticos, na radioterapia, nas cirurgias e nos tratamentos sistêmicos. 

Fórum Oncoguia debateu como definir as prioridades 

Um dos temas mais abordados durante os quatro dias de evento foi a importância de priorizar a oncologia nas políticas de saúde. O ex-ministro da saúde e pesquisador da Fiocruz, José Gomes Temporão, citou os programas de combate ao HIV e ao tabagismo como casos de sucesso que poderiam ser seguidos pela oncologia, que deveria ter seu próprio programa de controle e prevenção.

A abordagem interdisciplinar no setor foi citada como um fator importante a ser levado em consideração. Para introduzir o assunto, José Dinis, coordenador nacional para doenças oncológicas, em Portugal, falou sobre o tratamento do câncer no país como algo que não pode ficar apenas nas mãos dos ministérios da saúde de cada nação, mas de todo o governo: “As pesquisas, a informação e educação, o estilo de vida, o meio ambiente, os financiamentos e toda uma série de fatores provam que a oncologia envolve muitas áreas de sociedade, nos mostrando a importância de incluir outros ministérios”.

Denizar Vianna, ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde e professor associado da UERJ, destacou a importância da priorização explícita na oncologia, com um orçamento específico para um pacote definido cujas necessidades não estão sendo atendidas, garantido mais previsibilidade no setor. Ele lembrou que 80% da demanda oncológica do SUS é composta pelos mesmos tipos de câncer, propondo uma solução que funcionaria em espécies de mandatos com duração de quatro anos, nos quais as políticas de saúde priorizaram as neoplasias mais comuns, monitorando mais de perto o percurso da doença. 

Para justificar a importância de priorizar a oncologia, muitos participantes citaram diversas vezes que o câncer não apenas é a segunda maior causa de morte natural no Brasil, ficando atrás das doenças cardiovasculares, como já é a principal causa em dez estados. Os especialistas acreditam, de acordo com as estatísticas e projeções, que ele poderá alcançar a primeira posição a nível nacional no curto prazo.

A trajetória do paciente com câncer

O 12° Fórum abriu espaço para a discussão sobre as dificuldades do paciente oncológico para circular e, principalmente, se encontrar dentro do sistema de saúde pública. Segundo os palestrantes, esse trajeto – que já é complexo por si mesmo – pode ser ainda mais desafiador do que o normal quando o paciente se depara com filas de espera para receber o atendimento e é obrigado a procurar unidades de saúde distintas para cada etapa, muitas vezes longe da residência. Foi citado o exemplo de uma paciente que recebeu diagnóstico em um município e só pode obter o tratamento em outra cidade – situação que reflete a realidade de muitos.

De acordo com Pascoal Marracini, presidente da Associação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Combate ao Câncer (ABIFICC), em um mundo ideal, o paciente oncológico da saúde pública poderia passar por todas as fases do tratamento em uma única unidade de saúde, próxima da residência, obtendo o mesmo tipo de serviço independentemente do local de atendimento. Por fim, ele concluiu que esse não apenas não reflete a realidade brasileira como o paciente pode sofrer consequências como ter o estágio da doença avançado por conta do sistema. 

A falta de informação e transparência também foram mencionados como problemáticas na trajetória do paciente. “Muitos deles ficam perdidos, sem entender qual é o próximo passo do seu tratamento e sem prazo definido para cada etapa”, explicou Sonia Lanza Freire, coordenadora do grupo condutor de doenças crônicas da SES/SP.

O conselheiro estratégico de Advocacy do Instituto Oncoguia, Tiago Matos, falou sobre a importância de haver um sistema, com abrangência nacional, no qual o paciente conseguisse acompanhar melhor sua situação de tratamento e fez uma analogia aos aplicativos com GPS que indicam ao motorista de um veículo a situação do trânsito de automóveis nas ruas, assim como os pacientes oncológicos deveriam ter acesso com clareza à sua posição na fila de espera:

“Quando estamos parados dentro do carro, sem saber quando a circulação vai avançar e poderemos chegar ao destino, isso gera uma certa angústia. E então surgiu o Waze, para nos sinalizar a situação de engarrafamento e nos propor rotas alternativas. Esse mesmo conceito deveria existir na saúde. A transparência pode até não melhorar o problema por si só, mas sem ela é difícil fazer qualquer coisa para resolvê-lo, pois é a transparência que nos permite cobrar melhorias e fiscalizar abusos”.

Fórum Oncoguia

Telemedicina

Dentro das soluções propostas, a telemedicina foi citada como uma ferramenta aliada da oncologia. Durante a discussão sobre o tema, Carlos Pedrotti, gerente médico do centro de telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, explicou o conceito de Tele-Interconsulta, no qual o médico da atenção básica junta-se ao especialista para realizar o atendimento do paciente, ao invés de fazê-lo se deslocar até o especialista. 

Dessa forma, une-se duas consultas em uma só, o que pode também otimizar o tempo, já que os dois médicos conversam entre si e resumem a situação do paciente de forma mais objetiva – muitas vezes, quando é o paciente que narra seu estado de saúde entre um médico e outro, leva-se mais tempo para chegar aos pontos principais da consulta.

Pedrotti mencionou uma experiência realizada em 130 pontos de atendimento da rede pública da região norte de São Paulo, utilizando sete especialidades de saúde, como pneumologia, neurologia e cardiologia. Durante o experimento, os pacientes foram atendidos por um médico de cuidados primários dentro da unidade, utilizando a Tele-Interconsulta para ter acesso aos especialistas. 

Foi notado que 95% dos casos foram resolvidos sem a necessidade de deslocamento do paciente até o consultório do médico especialista. “Esse modelo pode ser altamente reprodutível para outras áreas da saúde, incluindo a oncologia”, conclui Pedrotti. 

Incorporação de novas tecnologias e a barreira do financiamento 

O evento também mostrou que, passadas as fases de consulta e diagnóstico, o paciente oncológico que necessita de um medicamento pode se deparar com mais um obstáculo no caminho: o acesso à tecnologia mais adequada para o tratamento de sua doença. O debate mostrou que as novas drogas surgem com uma velocidade que o orçamento de saúde não consegue acompanhar.

O processo de incorporação de uma nova tecnologia na rede pública, apontado como naturalmente longo, não garante que a droga chegue à ponta, ou seja, o paciente. A principal razão para isso, de acordo com os especialistas, é o orçamento disponível para a oncologia. André Ballalai destacou que as opções de financiamento do setor não são mais adaptadas para o cenário atual, que conta com uma medicina cada vez mais personalizada.

O que ocorre, hoje, é que a maioria dos medicamentos oncológicos são pagos via Apac (Autorização de Procedimentos de Alta Complexidade), que determina o orçamento para cada tipo de câncer, mas que, na maioria dos casos, de acordo com os especialistas, não é suficiente para cobrir os gastos de uma nova droga, obrigando o paciente a se manter com um tratamento menos moderno e compatível para sua doença.

A compra centralizada pelo Ministério da Saúde foi citada como uma possível solução, pois caberia ao órgão negociar com a indústria e utilizar seu poder de barganha pelo grande volume da compra, distribuindo posteriormente para as unidades de saúde. 

Neste contexto, Carisi Anne Polanczyk, cardiologista e coordenadora do INCT-IATS, explicou o conceito de uma agência única de regulação para a área da saúde, garantindo celeridade à incorporação de novas tecnologias, unificando a etapa de precificação e, portanto, diminuindo a redundância dos processos, pois acolheria os dois sistemas, público e privado.

O processo de incorporação de aprovação de um medicamento para o SUS pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologia) e para os planos de saúde pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), por exemplo, são bem similares, pois utilizam a mesma ferramenta de ATS (Avaliação de Tecnologia em Saúde). “Esse conceito não seria utilizado apenas para a avaliação de medicamentos, mas para olhar com inteligência para o sistema de saúde como um todo, fazendo os devidos monitoramentos, analisando dados, realizando pesquisas e colhendo evidências da vida real dos pacientes para obter um cenário completo”, explica Carisi.

Fórum Oncoguia

SUS não é igual em todo o país 

O último dia de debate foi marcado por um tema que já havia sido trazido pelo Instituto Oncoguia anteriormente, com a apresentação de uma pesquisa realizada em 2017: “Meu SUS é diferente do teu SUS”. Na época, o estudo tinha como objetivo investigar a uniformidade do atendimento oncológico da rede pública. 

Via Lei de Acesso à informação, mais de 100 unidades habilitadas em oncologia foram analisadas e os resultados mostraram que elas seguiam diretrizes diferentes para o tratamento dos mesmos tipos de câncer. “O CEP de uma pessoa termina definindo sua expectativa de vida”, afirmou Tiago Matos em sua apresentação. Ele também explicou a importância de voltar ao assunto de 2017 durante o Fórum, já que o mesmo problema segue existindo, com diferenças de protocolo de atendimento em todo o país.

Os participantes explicaram que, às vezes, não se trata nem de uma diferença notada apenas em regiões muito distantes no Brasil, mas em cidades próximas entre si. Foi citado o caso de pacientes com o mesmo tipo de câncer que estavam sendo tratados em unidades distintas, mas não tão distantes uma das outras. Alguns deles tiveram acesso ao tratamento dentro de um prazo menor e outros, tratados a poucos quilômetros de distância, receberam a mesma droga em um tempo superior. 

O fórum também contou, ao longo dos quatro dias, com o relato de pacientes voluntárias do Instituto Oncoguia, que compartilharam suas experiências de diagnóstico e tratamento de câncer. O final do evento contou com um bate-papo entre Luciana Holtz e quatro voluntárias. Uma delas, Anne Carrari, paciente de câncer de ovário, destacou a importância do evento para entender e buscar soluções no setor da oncologia: “É difícil ouvir tanto desafio que existe, mas sabemos que informação é poder e informação salva vidas”.

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